Kafka é mais forte do que a ***

Ontem, eu estava com um volume considerável de papéis para ler. Entre eles, a temida *** (não vem ao caso do que se trata. O que importa é a história). Só de olhar para a ***, meu estômago embrulha. É um misto de chatice, problematização e complexidade que é difícil fazer o sinal de legal e sorrir.

Em dado momento, parei para respirar e decidi garimpar um pouco pela internet. Achei um conto de Kafka (Um Médico de Aldeia) e não resisti – tentei, mas não consegui. É incrível, fascinante e angustiante – quem está com deadlines a todo vapor sabe disso – como a literatura pode ser o redemoinho, o furacão, a perdição ou a paixão bandida de alguém. Olhei para a *** e depois para Kafka. Foi fácil demais escolher.

cigarretes
Tenha nervos.

Fluxo de consciência # 18

Tirar isso de dentro. Silêncio, apenas silêncio. Não falar é a cura. Você se cansa, respira fundo, mas se cansa. Olha para todos os lados e precisa concentrar as energias que restam porque trabalhar duro é fácil; o difícil, o realmente difícil, é suportar a interação social com os chacais. E aqui estão eles, por toda parte e em todo lugar. E apenas por dentro, bem dentro, alguém cansado, exausto, resmunga. Por fora, é permitido e de bom tempo resmungar apenas com os olhos.

A cada dia que passa, sua missão fica mais clara: está ali, não se distraia, não se iluda. Há pessoas fiéis ao seu lado. Você sabe quem são. Elas são leais – e deverão ser até o final. Para algumas delas, não existe final.

“Está aqui, a resposta está aqui. Nós sinalizamos para você. Ainda não viu?”

E sim, você vê. Finalmente, depois de longos – QUASE ETERNOS – anos, você vê.

Eles estão seu lado, você não precisa temer. Você sabe quem eles são. E em um mundo onde ninguém sabe quem é ninguém, você os conhece.

Você reconhece os movimentos do mundo e percebe… Percebe que eles são vazios de significado. Exaustão no mundo externo. Carinho, acolhimento, paz e atenção no mundo interno.

O silêncio é a resposta.

Fluxo de consciência # 17

Hoje de madrugada, rolou o maior tiroteio pelas ruas da Grande Tijuca. Segundo relatos de pessoas em um grupo no Facebook, a perseguição policial só teve fim em uma rua movimentada de Vila Isabel.

Do meu apartamento, escutei mais de 20 tiros em questão de segundos. Eu vivo aqui há quase três anos e me pergunto como é viver a vida inteira debaixo dessa chuva de violência. A beleza precisa ser, necessariamente, algo frágil e trágico? Algo que exige tanto, que neutraliza e sequestra? Acho que não.

Fluxo de consciência # 16

Depois de horas na frente do computador e de papéis, meus olhos estão ardendo como dois tomates verdes fritos. De qualquer forma, acordei 5h ouvindo o canto do galo em algum lugar das proximidades ~ isso sempre me encanta! ~ e o barulho de motores ~ isso me desencanta profundamente!

Fiz as atividades cotidianas – planeje, faça, cheque e aja – e tirei alguns preciosos minutos para lembrar da minha irmã acordando de madrugada para jogar Zelda.

zelda
Lembrança da madrugada

 

 

 

 

 

 

 

 

Saudades de jogar videogame. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas… Lá vai. Vou tirar um dia sabático para jogar, assistir animes, ler quadrinhos e comer besteira para caramba – o que não é difícil!

goku
Eu e a minha irmã ~ minha irmã e eu 🙂

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vou terminar com uma lembrança para o meu tesourinho e para mim mesma:

game
Just for you and me 😀

Reminiscências #3

Na gruta, no fundo do mar. A respiração é uma miragem. Dormindo na cripta, com medo de acordar. Limpeza pausada e leve. Por dentro, para dentro e de dentro.

Salão de festas, várias pessoas conversando. Álvares de Azevedo conversa com Shelley. Esse é outro tempo, outra dimensão. Uma mulher se desequilibra e derrama vinho no chão. Cavalheiros acodem. As portas são brancas, pesadas. Um dos cômodos dá para uma imensa árvore centenária. Ela ainda está lá.

Why did I ever start this? #1

A cidade acordou submersa em neblina, chuva e frio. A atmosfera combina perfeitamente com o sentimento geral que tem dominado o lugar. Experimente passear os olhos por qualquer jornal, site ou boletim de notícias e confirmará o que estou dizendo.

Um fragmento do poema “A Terra Devastada” (The Waste Land), de T.S Eliot, na tradução de Ivan Junqueira, ilustra, melhor do que eu poderia fazer, as emoções que passeiam pelo meu peito nesse cenário bélico:

“O ENTERRO DOS MORTOS

 Abril é o mais cruel dos meses, germina

Lilases da terra morta, mistura

Memória e desejo, aviva

Agônicas raízes com a chuva da primavera.

O inverno nos agasalhava, envolvendo

A terra em neve deslembrada, nutrindo

Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.

O verão nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee

Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos

E ao sol caminhamos pelas aléias do Hofgarten,

Tomamos café, e por uma hora conversamos.

Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.

Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,

Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.

E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,

Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos.

Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.

Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.

 

Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham

Nessa imundície pedregosa? Filho do homem

Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces

Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,

E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o

canto dos grilos,

E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas

Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.

(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),

E vou mostrar-te algo distinto

De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece

Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;

Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

 

Frisch weht der Wind

                  Der Heimat zu

                  Mein Irisch Kind,

                  Wo weilest du?

 

“Um ano faz agora que os primeiros jacintos me deste;

Chamavam-me a menina dos jacintos.”

– Mas ao voltarmos, tarde, do Jardim dos Jacintos,

Teus braços cheios de jacintos e teus cabelos úmidos, não pude

Falar, e meus olhos se enevoaram, eu não sabia

Se vivo ou morto estava, e tudo ignorava

Perplexo ante o coração da luz, o silêncio.

Oed’ und leer das Meer.

 

Madame Sosostris, célebre vidente,

Contraiu incurável resfriado; ainda assim,

É conhecida como a mulher mais sábia da Europa,

Com seu trêfego baralho. Esta aqui, disse ela,

É tua carta, a do Marinheiro Fenício Afogado.

(Estas são as pérolas que foram seus olhos. Olha!)

Eis aqui Beladona, a Madona dos Rochedos,

A Senhora das Situações.

Aqui está o homem dos três bastões, e aqui a Roda da Fortuna,

E aqui se vê o mercador zarolho, e esta carta,

Que em branco vês, é algo que ele às costas leva,

Mas que a mim proibiram-me de ver. Não acho

O Enforcado. Receia morte por água.

Vejo multidões que em círculos perambulam.

Obrigada. Se encontrares, querido, a Senhora Equitone,

Diz-lhe que eu mesma lhe entrego o horóscopo:

Todo o cuidado é pouco nestes dias.

 

Cidade irreal,

Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno,

Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos,

Jamais pensei que a morte a tantos destruíra.

Breves e entrecortados, os suspiros exalavam,

E cada homem fincava o olhar adiante de seus pés.

Galgava a colina e percorria a King William Street,

Até onde Saint Mary Woolnoth marcava as horas

Com um dobre surdo ao fim da nona badalada.

Vi alguém que conhecia, e o fiz parar, aos gritos: “Stetson,

Tu que estiveste comigo nas galeras de Mylae!

O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim

Já começou a brotar? Dará flores este ano?

Ou foi a imprevista geada que o perturbou em seu leito?

Conserva o Cão à distância, esse amigo do homem,

Ou ele virá com suas unhas outra vez desenterrá-lo!

Tu! Hypocrite lecteur! – mon semblable -, mon frère!””

***

É isso.

Por hoje.