Reminiscências #3

Na gruta, no fundo do mar. A respiração é uma miragem. Dormindo na cripta, com medo de acordar. Limpeza pausada e leve. Por dentro, para dentro e de dentro.

Salão de festas, várias pessoas conversando. Álvares de Azevedo conversa com Shelley. Esse é outro tempo, outra dimensão. Uma mulher se desequilibra e derrama vinho no chão. Cavalheiros acodem. As portas são brancas, pesadas. Um dos cômodos dá para uma imensa árvore centenária. Ela ainda está lá.

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Why did I ever start this? #1

A cidade acordou submersa em neblina, chuva e frio. A atmosfera combina perfeitamente com o sentimento geral que tem dominado o lugar. Experimente passear os olhos por qualquer jornal, site ou boletim de notícias e confirmará o que estou dizendo.

Um fragmento do poema “A Terra Devastada” (The Waste Land), de T.S Eliot, na tradução de Ivan Junqueira, ilustra, melhor do que eu poderia fazer, as emoções que passeiam pelo meu peito nesse cenário bélico:

“O ENTERRO DOS MORTOS

 Abril é o mais cruel dos meses, germina

Lilases da terra morta, mistura

Memória e desejo, aviva

Agônicas raízes com a chuva da primavera.

O inverno nos agasalhava, envolvendo

A terra em neve deslembrada, nutrindo

Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.

O verão nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee

Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos

E ao sol caminhamos pelas aléias do Hofgarten,

Tomamos café, e por uma hora conversamos.

Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.

Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,

Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.

E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,

Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos.

Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.

Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.

Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham

Nessa imundície pedregosa? Filho do homem

Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces

Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,

E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o

canto dos grilos,

E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas

Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.

(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),

E vou mostrar-te algo distinto

De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece

Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;

Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

Frisch weht der Wind

                  Der Heimat zu

                  Mein Irisch Kind,

                  Wo weilest du?

“Um ano faz agora que os primeiros jacintos me deste;

Chamavam-me a menina dos jacintos.”

– Mas ao voltarmos, tarde, do Jardim dos Jacintos,

Teus braços cheios de jacintos e teus cabelos úmidos, não pude

Falar, e meus olhos se enevoaram, eu não sabia

Se vivo ou morto estava, e tudo ignorava

Perplexo ante o coração da luz, o silêncio.

Oed’ und leer das Meer.

Madame Sosostris, célebre vidente,

Contraiu incurável resfriado; ainda assim,

É conhecida como a mulher mais sábia da Europa,

Com seu trêfego baralho. Esta aqui, disse ela,

É tua carta, a do Marinheiro Fenício Afogado.

(Estas são as pérolas que foram seus olhos. Olha!)

Eis aqui Beladona, a Madona dos Rochedos,

A Senhora das Situações.

Aqui está o homem dos três bastões, e aqui a Roda da Fortuna,

E aqui se vê o mercador zarolho, e esta carta,

Que em branco vês, é algo que ele às costas leva,

Mas que a mim proibiram-me de ver. Não acho

O Enforcado. Receia morte por água.

Vejo multidões que em círculos perambulam.

Obrigada. Se encontrares, querido, a Senhora Equitone,

Diz-lhe que eu mesma lhe entrego o horóscopo:

Todo o cuidado é pouco nestes dias.

Cidade irreal,

Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno,

Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos,

Jamais pensei que a morte a tantos destruíra.

Breves e entrecortados, os suspiros exalavam,

E cada homem fincava o olhar adiante de seus pés.

Galgava a colina e percorria a King William Street,

Até onde Saint Mary Woolnoth marcava as horas

Com um dobre surdo ao fim da nona badalada.

Vi alguém que conhecia, e o fiz parar, aos gritos: “Stetson,

Tu que estiveste comigo nas galeras de Mylae!

O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim

Já começou a brotar? Dará flores este ano?

Ou foi a imprevista geada que o perturbou em seu leito?

Conserva o Cão à distância, esse amigo do homem,

Ou ele virá com suas unhas outra vez desenterrá-lo!

Tu! Hypocrite lecteur! – mon semblable -, mon frère!””

***

É isso.

Por hoje.

Fluxo de consciência # 15

Nem por um segundo sou capaz de questionar a maravilha que é o inverno. Mas, como nem tudo é perfeito, há algo de podre na estação mais completa de todas: os dias viram noites prolongadas. E rápido, muito rápido.

Não que eu desgoste da noite – pelo contrário, sou extremamente grata. É o meu período mais criativo -, mas fica impossível perambular pelas ruas da cidade ou tentar dormir por horas seguidas. Tenho insônia, meu prédio e minha rua são barulhentos – um arrastar sem fim de móveis no andar de cima, gritos vindos da rua (vozes histéricas, brigas, gargalhadas insanas), motor de veículos e os insuportáveis ônibus (pelo menos um intermunicipal passa por aqui)… Sem contar as intermináveis motos e suas buzinas.

Além disso, não se pode flanar pelas ruas como nos bons tempos do século XIX – que tinha lá seus perigos e marmoteiros, afinal… Mas acho que a violência urbana atual – daqui e de outros locais – é tão sufocante que ficar em casa ainda é a melhor opção (pelo menos para mim).

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RJ: O vento no rosto e a calmaria de 1854

Tenho trabalhado até tarde – para freelancer, não existem férias -, dormido pouco, assistido a filmes e séries e lido algumas coisas (menos do que gostaria). A grande felicidade dos dias tem sido a capacidade de escrever com fluência, rapidez e leveza. Preciso admitir: escrever sem engasgar é ouro puro! ❤

Nos últimos dias, flanei por alguns espaços culturais e conferi exposições. Falarei disso outro dia (ou não). Entre uma instalação artística e outra, alguns questionamentos pipocaram na minha cabeça: a quem interessa manter o povo longe do conhecimento, da arte, de todo o seu esplendor, vigor e fruição? Por que continuamos alimentando a ideia de que a intelectualidade é “talento” para poucos? Ou ainda – e mais importante: Como ousamos nós, oh intelectuais abastados ou em processo de ascensão, apontar o dedo na cara de pessoas que trabalham de segunda a sábado, em longas jornadas diárias, com salários que não fazem nem cócegas nos pés de ladrões engravatados – veja, eles falam em “milhões” (propina de 2 milhões, 1 milhão, 500 mil… que dinheiro é esse, eu me pergunto?! que soma é essa que nem imagino que exista?), exigindo que tenham a obrigação de se interessar pelas esculturas de Lasar Segall, ler Machado de Assis e decodificar suas ironias brilhantes, ouvir William Lawes, se deliciando com suas composições barrocas, e cair em euforia ou catarse ao observar uma tela de Iberê Camargo?

Quanta hipocrisia nesse país afundado, meu Deus! Tenho pensado nisso todos os dias e meu estômago embrulha. Planos e esforços hercúleos para terminarmos como Sísifo. Puxa vida!

train
A quem interessa que eu me torne um animal mecânico? A quem?

No coração da cidade, as pessoas parecem estar cada vez mais loucas, mau humoradas, indiferentes, resmungonas, chateadas, frias, trapaceiras, desinteressantes e mortas-vivas. E claro: alguém tem que pagar. E esse alguém, geralmente, é o seu próximo.

A cada novo dia que nasce, defendo a criação de um templo interno onde você consiga se resguardar da sandice que é viver em um umbral. Falo de modo geral, e não apenas da cidade em que resido no momento. Ou você constrói seu templo sagrado ou você vai ser despedaçado. Como grita James Hetfield com sua voz rasgada: “Sad but true”.

E como criar um templo interior, você me perguntaria?!

Bem, eu tenho desenvolvido algumas técnicas. Elas funcionam para mim – evidentemente, podem ou não funcionar para você:

  • Reservar algum tempo durante o dia para fazer atividades que me dão prazer;
  • Falar pouco – quase nada – e ouvir mais;
  • Prestar total atenção no outro mas, quando a conversa atingir níveis insuportáveis (ou se for o caso de manter contato com pessoas intragáveis), eu tiro a minha mente do local (hasta la vista, baby). Não me sinto na obrigação de aturar ladainhas ou “fa-lá-lá-lá” de ninguém. Também não gosto de ser indelicada e rude, portanto, eis o escapismo perfeito;
  • Não perder nem 10 minutos do meu tempo com vitrinismos ou conversas desnecessárias (fofocas, vida alheia, passar o tempo observando a rotina do outro em redes sociais, entre outros tipos de inutilidades);
  • Entender que o mundo não é um paraíso onde “eu faço só o que eu quero”, mas sim um lugar onde, muitas vezes, você precisa fazer “o que tem que fazer”;
  • Ficar ao lado das pessoas & animais que amo (99% deles moram fora, com exceção do meu marido e dos meus gatos, portanto, sempre dou um jeito: mando cartas, cartões (pois é!!! adoro!!), e-mails, torpedos de celular (não se surpreenda!) e mensagens pelo whatsapp. Ouço o que elas têm a dizer, o que pensam e o que sentem com 100% de atenção e empatia;
  • Tornar o relógio um amigo pessoal e não um inimigo capital.

Essas são algumas técnicas que estou desenvolvendo. Devo escrever um texto mais aprofundado e publicar. Deixo o link por aqui. Também quero falar sobre minhas impressões ao perambular pelos centros culturais. Inclusive, uma dessas perambulações me fez confrontar diretamente o meu passado e rever os meus objetivos, sonhos e a minha própria vida (sobre isso eu não quero falar, felizmente).

fantas
Dans mon monde

Mantra visual #2: Chuva

Chove desde cedo. Vários pontos da cidade estão alagados. Caos.

Ouço os pingos audaciosos baterem na minha janela antes de se lançarem em queda livre. Não há medo; pelo contrário: diante da efemeridade de todas as coisas, eles se entregam aos castelos de ar.

Cachorros latem ao longe – mas não tão longe. Novamente, os pingos de chuva. São quase 2h da manhã e a casa começa a ganhar vida.

Carros aceleram na pista molhada, enfrentando poças de água e pequenos córregos. Ao longe, o sinal de um portão eletrônico dispara. Vozes altas, como sempre, esnobam o silêncio da madrugada.

Chuva.