Vó Inácia

Se a minha avó paterna fosse viva, hoje ela estaria passando por mais um aniversário. Pelo que me lembro, vovó Inácia nunca foi fã de comemorações ou festas. Tinha lá seu jeito trancafiado, quase casmurro.

Na infância, eu e a minha irmã frequentávamos muito a casa dos meus avós (de ambos os lados). Da vovó Inácia, guardo o jeitão sincero, a força, a higiene impecável (entre outras coisas, cada pessoa tinha um copo e um prato próprio, costume que meus pais carregaram e que eu, agora na minha casa, também desenvolvo), o cheiro do macarrão lotado de corante (colorífico), a carne assada afundada em um caldinho que não era para estar lá, o gosto pela fava, os resmungos (puxei um pouco disso), as lamentações dignas de confissões de igreja (pulei essa característica) e, claro, a luta diária para criar 5 filhos (ao lado do vovô Jacob).

Meu pai lembra muito a vovó. Ele diz que não, que eu sou a pessoa mais semelhante (se refere ao fato de eu estar sempre suricateando, atenta 360 graus, sem descanso) e por comer e me levantar para checar alguma coisa (ato perigosíssimo e que, sempre que podem, meus pais, irmã e marido chamam a minha atenção).

Lembro da última vez que vi a vovó. Não foi no hospital, onde ela faleceu. Foi na casa dela. Depois que ela partiu, sonhei com sua presença algumas vezes. Sonhos dormindo e sonhos acordados, na fase do cochilo. Não tenho um milhão de motivos para ter imensas saudades da vovó; não porquê ela fosse uma avó ruim, mas porque não éramos tão próximas (tipo Dona Benta, Pedrinho e Narizinho). Mas, por alguma razão que não sei justificar, eu sinto falta da vovó. E onde ela estiver, acho que sabe disso. Feliz aniversário, vovó Inácia!

(P.S: Fiquei feliz quando seu nome foi parar em uma rua da cidade – Teresina. Rua Professora Inácia Meneses, no bairro Itararé, cep: 64077-145). A ideia foi do papai e eu desenvolvi o texto e escrevi para o concurso da prefeitura – acho que se chama “Se essa rua fosse minha”).