Fluxo de consciência # 17

Hoje de madrugada, rolou o maior tiroteio pelas ruas da Grande Tijuca. Segundo relatos de pessoas em um grupo no Facebook, a perseguição policial só teve fim em uma rua movimentada de Vila Isabel.

Do meu apartamento, escutei mais de 20 tiros em questão de segundos. Eu vivo aqui há quase três anos e me pergunto como é viver a vida inteira debaixo dessa chuva de violência. A beleza precisa ser, necessariamente, algo frágil e trágico? Algo que exige tanto, que neutraliza e sequestra? Acho que não.

Anúncios

Why did I ever start this? #1

A cidade acordou submersa em neblina, chuva e frio. A atmosfera combina perfeitamente com o sentimento geral que tem dominado o lugar. Experimente passear os olhos por qualquer jornal, site ou boletim de notícias e confirmará o que estou dizendo.

Um fragmento do poema “A Terra Devastada” (The Waste Land), de T.S Eliot, na tradução de Ivan Junqueira, ilustra, melhor do que eu poderia fazer, as emoções que passeiam pelo meu peito nesse cenário bélico:

“O ENTERRO DOS MORTOS

 Abril é o mais cruel dos meses, germina

Lilases da terra morta, mistura

Memória e desejo, aviva

Agônicas raízes com a chuva da primavera.

O inverno nos agasalhava, envolvendo

A terra em neve deslembrada, nutrindo

Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.

O verão nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee

Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos

E ao sol caminhamos pelas aléias do Hofgarten,

Tomamos café, e por uma hora conversamos.

Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.

Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,

Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.

E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,

Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos.

Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.

Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.

Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham

Nessa imundície pedregosa? Filho do homem

Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces

Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,

E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o

canto dos grilos,

E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas

Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.

(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),

E vou mostrar-te algo distinto

De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece

Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;

Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

Frisch weht der Wind

                  Der Heimat zu

                  Mein Irisch Kind,

                  Wo weilest du?

“Um ano faz agora que os primeiros jacintos me deste;

Chamavam-me a menina dos jacintos.”

– Mas ao voltarmos, tarde, do Jardim dos Jacintos,

Teus braços cheios de jacintos e teus cabelos úmidos, não pude

Falar, e meus olhos se enevoaram, eu não sabia

Se vivo ou morto estava, e tudo ignorava

Perplexo ante o coração da luz, o silêncio.

Oed’ und leer das Meer.

Madame Sosostris, célebre vidente,

Contraiu incurável resfriado; ainda assim,

É conhecida como a mulher mais sábia da Europa,

Com seu trêfego baralho. Esta aqui, disse ela,

É tua carta, a do Marinheiro Fenício Afogado.

(Estas são as pérolas que foram seus olhos. Olha!)

Eis aqui Beladona, a Madona dos Rochedos,

A Senhora das Situações.

Aqui está o homem dos três bastões, e aqui a Roda da Fortuna,

E aqui se vê o mercador zarolho, e esta carta,

Que em branco vês, é algo que ele às costas leva,

Mas que a mim proibiram-me de ver. Não acho

O Enforcado. Receia morte por água.

Vejo multidões que em círculos perambulam.

Obrigada. Se encontrares, querido, a Senhora Equitone,

Diz-lhe que eu mesma lhe entrego o horóscopo:

Todo o cuidado é pouco nestes dias.

Cidade irreal,

Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno,

Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos,

Jamais pensei que a morte a tantos destruíra.

Breves e entrecortados, os suspiros exalavam,

E cada homem fincava o olhar adiante de seus pés.

Galgava a colina e percorria a King William Street,

Até onde Saint Mary Woolnoth marcava as horas

Com um dobre surdo ao fim da nona badalada.

Vi alguém que conhecia, e o fiz parar, aos gritos: “Stetson,

Tu que estiveste comigo nas galeras de Mylae!

O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim

Já começou a brotar? Dará flores este ano?

Ou foi a imprevista geada que o perturbou em seu leito?

Conserva o Cão à distância, esse amigo do homem,

Ou ele virá com suas unhas outra vez desenterrá-lo!

Tu! Hypocrite lecteur! – mon semblable -, mon frère!””

***

É isso.

Por hoje.

Sobre desencantos #6

Tenho um grande amigo ~ um dos melhores! ~ que, assim como eu, está vivendo o processo de “vida sem rastros” (ou quase sem rastros) nas redes sociais. Pelo menos, rastros disseminados por nós mesmos.

Esses dias – ontem, na verdade -, ele veio desabafar:

Best Friend: – Estou triste.

Moi: – Por que?

Best Friend: – Estou há três semanas longe das redes sociais e ninguém mais comenta nas minhas postagens, curte, etc e etc… (choradeira gótica). Parece que me esqueceram (mais choradeira gótica).

Moi: – Por que isso te incomoda tanto?

Best Friend: – Pô, meu! Quem gosta de ser esquecido????! (indignação)

Moi: – Essas pessoas com amnésia seletiva… Quem são?

Best Friend: – Não são amigões… Mas são amigos, colegas…

(interrompo antes que o alaúde toque novamente)

pinkcel
Estratégia para o perfil do Instagram

Moi: – Antes de tudo, permita-me dizer: Não são amigos. Amigo que é amigo não esquece, não tem amnésia seletiva e, acima de tudo, respeita o silêncio ou dá seu jeito em ir atrás, saber o que está acontecendo, quais são suas motivações… Colegas e conhecidos… Desculpe, mas devem estar no modo “I don’t give a fuck” para você. Já assistiu “O Casamento do Meu Melhor Amigo?”

– Best Friend: – Já… Mas o que isso tem a ver?

– Moi: – Meu caro, você está correndo (lamentando) toda essa gente. E quem é mesmo que está correndo atrás de você?

(Silêncio).

– Best Friend (indignado, passando a peteca pra mim): – Você não se importa não, Mara? Galera não comenta mais nas suas coisas, não curte…

– Moi: – Não.

– Best Friend: – COMO NÃO?

– Moi: – Para mim, recíproca é coisa forte, entende?! Se não estão dando a mínima, por que eu deveria dar?

hand
Hello? I don’t care.

Fluxo de consciência # 14

A versão cinematográfica mais recente de Jane Eyre (2011) traz um diálogo entre Jane e St. John Rivers. É mais ou menos assim:

St. John: –  Achei um trabalho para você, mas receio que não seja digno de suas capacidades. Trata-se de assumir uma escola para meninas, filhas de aldeões, por 15 libras por ano. Como pode ver, muito simples.

Jane: – Eu aceito, Mr. St. John. Muito obrigada!

St. John: – Mas o que você vai fazer com todo o seu talento?

Jane: – Vou guardá-lo até que possa usá-lo novamente. Ele não vai sumir.

Life_01
Será só imaginação? Eu era uma lobisomem juvenil.

Pois é.

Nos últimos meses, reler o livro e assistir repetidas vezes ao filme (essa versão, digo) tem sido uma espécie de “agasalho” para o meu espírito. Ser nocauteada por circunstâncias “naturais”, “externas” e “rotineiras” já tem seu toque de dureza em si, imagine então receber “voadora” de pessoas & criaturas… Perceber o mau caráter, a maldade, a pilantragem, a armação, o charlatanismo…

Um amigo me diz sempre:

– O mundo é isso mesmo. Só tem esse tipo de gente para lidar e conviver, etc e etc.

Keller Dover, personagem de Hugh Jackman em “Os Suspeitos”, apontaria o dedo na minha cara e diria:

– Espere o melhor, mas prepare-se para o pior.

Pois é.

Smoke_01
No melhor feeling de “Get out!”

Sobre desencantos #5

Que o ser humano, em termos gerais, é uma espécie de espantalho egoísta, mesquinho e desprezível não resta a menor dúvida. No entanto, certos elementos alcançam o status de “hors concours” quando se trata de desrespeito e escr***dão.

Desde ontem, um grupo de pessoas que berra como uma cabrada usa um play (?), um terraço de casa de vila (?), um espaço público (?) para atormentar toda a vizinhança com sons altíssimos, atordoantes, incessantes, perturbadores. Ontem, a festa de Baco só terminou às 3h da manhã. Insuportável! Hoje, passei o dia todo querendo me concentrar, ler, fazer minhas atividades intelectuais… Quase sem sucesso.

Os cães chupando manga continuam com suas gritarias, suas músicas sobre traição, amores interrompidos, sobre “dar na cara dela” e coisas do gênero. A cidade está caótica, dominada pela criminalidade, perigando explodir em uma bolha de violência e desemprego maior do que já está e as pessoas continuam agindo como se nada disso fosse com elas ou sobre elas. Eu poderia repetir o jargão utilizado à exaustão por aí (a saber, o famigerado “lamentável!!!!”), mas prefiro massagear as minhas têmporas, fechar os olhos e treinar a respiração.

Quando não se há nada mais a dizer, não se diz nada.

Ne verbum quidem.

eye_01
Observar. Pensar. Sentir. Fazer.

Fluxo de consciência # 13

Programei meu dia para realizar algumas atividades no centro da cidade. Antes de sair, dei uma garimpada em um grupo coletivo que indica depoimentos de assaltos e ações de violência no bairro. Descobri que não poderia sair de casa hoje, pois “homens armados” (expressão utilizada pela mídia, omitindo o termo real) ameaçaram comerciantes e moradores da região. Não é a primeira vez – e sem qualquer dúvida, não será a última – que esse tipo de ameaça paira sobre o Rio de Janeiro (especialmente na zona norte da cidade). Não há o que dizer. Sinto apenas cansaço ~ muito cansaço ~ de toda essa situação (e algumas outras). Prefiro concentrar minhas energias em outros “ciclopes”.

Estou conseguindo desenvolver algumas habilidades. Fico satisfeita que sejam fruto de decisões conscientes. Fiz uma lista de “projetos e metas” a alcançar para este ano e já consigo riscar alguns itens. Maaaaaas, ainda existem outros tantos pulando no meu rosto toda vez que abro o meu diário ~ encadernado e de papel, nada virtual.

Meu interesse em espiar as vitrines alheias está próximo do zero absoluto. Outra felicidade. É incrível a quantidade de paz que brota dessa atitude. Tenho conversado sobre isso com a minha irmã Rafa, com a Carol e com o Carlos e tem sido bem proveitoso. Uso apenas as funcionalidades básicas dos aplicativos e sites vinculados às redes sociais. Tudo no menor tempo possível. E mesmo o básico do básico tem me provocado um tédio profundo.

Baixei um livro interessante sobre meditação. Parei na página 18, mas pretendo retomar amanhã. Procrastinação é um veneno!

peace
Um silêncio islandês toma conta do meu coração.

Alguns dos meus livros, cadernos e manuais mais utilizados estão empilhados em um banco verde sem seguir nenhuma ordem. Está parecendo uma Torre de Pisa. Já sinto incômodo só de olhar. Tenho TOC com ordem, organização, limpeza, etc e etc. Mas isso não é muito difícil de notar – basta olhar os meus pertences.

dennis
Don’t throw the baby out with the bathwater

Apenas percepção – e nada mais

O momento presente é algo tão fugaz e frágil que, por conta do nosso constante descuido, acabamos perdendo todos os pequenos ~ grandes ~ mistérios da existência. Estamos sempre vidrados em divulgar amostras grátis de nossas vidas na internet, pedir a benção dos outros para continuar ou descontinuar projetos e validando nossas experiências através do olhar do outro (olha, estive aqui e ali, mas só tem sentido estar em qualquer lugar ou fazer qualquer coisa se todos vocês souberem que eu estive e fiz, ok?), que perdemos o real sentimento do “sentir”, do estar presente.

De ontem para hoje, minha garganta inflamou de tal forma que está beeeem difícil até engolir. Acordei no começo da manhã de um sábado, em plena 5h, com dores e mal estar. Ontem estava tudo no balanço das ondas e hoje já me sinto assim.

Nenhuma injustiça, nada. É apenas a vida. Então, estou cada vez tentando me concentrar em sentir e viver, silente e observadora.

Cada minuto é precioso, joia rara. Infelizmente, perdemos nossos diamantes dando-os aos porcos da mediocridade. Quero que isso terminei. E irei fazer por onde.