Fluxo de consciência # 19

Tem certos dias em que o cansaço me vence. As pernas doem, o corpo lateja, a cabeça pulsa. A mecanicidade da rotina é ferramenta de tortura medieval. Encontrar o equilíbrio e driblar o “mais do mesmo” é um dos grandes desafios.

Tenho dormido tarde, acordado cedo, trabalhado, me dedicado a um projeto pessoal, estado próxima da minha família ❤ e de meus amigos queridos ❤ , organizado minha casa e lidado com o resto do mundo. Dentre essas coisas, as paixões eu tiro de letra. Já as obrigações e convenções sociais são mais exaustivas do que posso suportar.

Criei uma conta no Instagram para poder falar/ilustrar sobre o que gosto. É um alívio, uma recompensa. Como dizia Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta”. Definitivamente, ela não basta. É um tremendo alívio quando posso ficar só com os meus pensamentos e conversar horas e horas com eles, sem falar sequer uma palavra. Maravilhoso é o conforto de criar algo, tirar algo do universo abstrato e torná-lo real. A cura está no silêncio e na observação, mas é um afago na alma conversar com gente agradável, com exploradores do mundo e de si mesmos, que estão interessados em algo a mais do que egos, superficialidades, máscaras, lamentações ou chateações.

Surreal poder conversar, através da literatura, da música, do cinema e da pintura, com velhos amigos, pesssoas que já morreram há muuuuito tempo. É ultradimensional, uma experiência magnética e impagável!

É bom matar a saudade daqueles nos quais tive o prazer de conhecer em vida e que tanto me ajudaram, influenciaram, indicaram novas rotas e provaram que fruição estética pode estar associada a conhecimento (sim, é possível!).

Quando o tédio do presente bate a porta, quando o cansaço grita em meu ouvido e certas relações sociais tornam-se um fardo demasiado pesado, eu me volto para o passado, para outras dimensões, para dentro de mim. Entro e fecho a porta no meu lugar inviolável.

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Fluxo de consciência # 18

Tirar isso de dentro. Silêncio, apenas silêncio. Não falar é a cura. Você se cansa, respira fundo, mas se cansa. Olha para todos os lados e precisa concentrar as energias que restam porque trabalhar duro é fácil; o difícil, o realmente difícil, é suportar a interação social com os chacais. E aqui estão eles, por toda parte e em todo lugar. E apenas por dentro, bem dentro, alguém cansado, exausto, resmunga. Por fora, é permitido e de bom tempo resmungar apenas com os olhos.

A cada dia que passa, sua missão fica mais clara: está ali, não se distraia, não se iluda. Há pessoas fiéis ao seu lado. Você sabe quem são. Elas são leais – e deverão ser até o final. Para algumas delas, não existe final.

“Está aqui, a resposta está aqui. Nós sinalizamos para você. Ainda não viu?”

E sim, você vê. Finalmente, depois de longos – QUASE ETERNOS – anos, você vê.

Eles estão seu lado, você não precisa temer. Você sabe quem eles são. E em um mundo onde ninguém sabe quem é ninguém, você os conhece.

Você reconhece os movimentos do mundo e percebe… Percebe que eles são vazios de significado. Exaustão no mundo externo. Carinho, acolhimento, paz e atenção no mundo interno.

O silêncio é a resposta.

Fluxo de consciência # 17

Hoje de madrugada, rolou o maior tiroteio pelas ruas da Grande Tijuca. Segundo relatos de pessoas em um grupo no Facebook, a perseguição policial só teve fim em uma rua movimentada de Vila Isabel.

Do meu apartamento, escutei mais de 20 tiros em questão de segundos. Eu vivo aqui há quase três anos e me pergunto como é viver a vida inteira debaixo dessa chuva de violência. A beleza precisa ser, necessariamente, algo frágil e trágico? Algo que exige tanto, que neutraliza e sequestra? Acho que não.

Fluxo de consciência # 16

Depois de horas na frente do computador e de papéis, meus olhos estão ardendo como dois tomates verdes fritos. De qualquer forma, acordei 5h ouvindo o canto do galo em algum lugar das proximidades ~ isso sempre me encanta! ~ e o barulho de motores ~ isso me desencanta profundamente!

Fiz as atividades cotidianas – planeje, faça, cheque e aja – e tirei alguns preciosos minutos para lembrar da minha irmã acordando de madrugada para jogar Zelda.

zelda
Lembrança da madrugada

 

 

 

 

 

 

 

 

Saudades de jogar videogame. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas… Lá vai. Vou tirar um dia sabático para jogar, assistir animes, ler quadrinhos e comer besteira para caramba – o que não é difícil!

goku
Eu e a minha irmã ~ minha irmã e eu 🙂

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vou terminar com uma lembrança para o meu tesourinho e para mim mesma:

game
Just for you and me 😀

Fluxo de consciência # 15

Nem por um segundo sou capaz de questionar a maravilha que é o inverno. Mas, como nem tudo é perfeito, há algo de podre na estação mais completa de todas: os dias viram noites prolongadas. E rápido, muito rápido.

Não que eu desgoste da noite – pelo contrário, sou extremamente grata. É o meu período mais criativo -, mas fica impossível perambular pelas ruas da cidade ou tentar dormir por horas seguidas. Tenho insônia, meu prédio e minha rua são barulhentos – um arrastar sem fim de móveis no andar de cima, gritos vindos da rua (vozes histéricas, brigas, gargalhadas insanas), motor de veículos e os insuportáveis ônibus (pelo menos um intermunicipal passa por aqui)… Sem contar as intermináveis motos e suas buzinas.

Além disso, não se pode flanar pelas ruas como nos bons tempos do século XIX – que tinha lá seus perigos e marmoteiros, afinal… Mas acho que a violência urbana atual – daqui e de outros locais – é tão sufocante que ficar em casa ainda é a melhor opção (pelo menos para mim).

rj_1854
RJ: O vento no rosto e a calmaria de 1854

Tenho trabalhado até tarde – para freelancer, não existem férias -, dormido pouco, assistido a filmes e séries e lido algumas coisas (menos do que gostaria). A grande felicidade dos dias tem sido a capacidade de escrever com fluência, rapidez e leveza. Preciso admitir: escrever sem engasgar é ouro puro! ❤

Nos últimos dias, flanei por alguns espaços culturais e conferi exposições. Falarei disso outro dia (ou não). Entre uma instalação artística e outra, alguns questionamentos pipocaram na minha cabeça: a quem interessa manter o povo longe do conhecimento, da arte, de todo o seu esplendor, vigor e fruição? Por que continuamos alimentando a ideia de que a intelectualidade é “talento” para poucos? Ou ainda – e mais importante: Como ousamos nós, oh intelectuais abastados ou em processo de ascensão, apontar o dedo na cara de pessoas que trabalham de segunda a sábado, em longas jornadas diárias, com salários que não fazem nem cócegas nos pés de ladrões engravatados – veja, eles falam em “milhões” (propina de 2 milhões, 1 milhão, 500 mil… que dinheiro é esse, eu me pergunto?! que soma é essa que nem imagino que exista?), exigindo que tenham a obrigação de se interessar pelas esculturas de Lasar Segall, ler Machado de Assis e decodificar suas ironias brilhantes, ouvir William Lawes, se deliciando com suas composições barrocas, e cair em euforia ou catarse ao observar uma tela de Iberê Camargo?

Quanta hipocrisia nesse país afundado, meu Deus! Tenho pensado nisso todos os dias e meu estômago embrulha. Planos e esforços hercúleos para terminarmos como Sísifo. Puxa vida!

train
A quem interessa que eu me torne um animal mecânico? A quem?

No coração da cidade, as pessoas parecem estar cada vez mais loucas, mau humoradas, indiferentes, resmungonas, chateadas, frias, trapaceiras, desinteressantes e mortas-vivas. E claro: alguém tem que pagar. E esse alguém, geralmente, é o seu próximo.

A cada novo dia que nasce, defendo a criação de um templo interno onde você consiga se resguardar da sandice que é viver em um umbral. Falo de modo geral, e não apenas da cidade em que resido no momento. Ou você constrói seu templo sagrado ou você vai ser despedaçado. Como grita James Hetfield com sua voz rasgada: “Sad but true”.

E como criar um templo interior, você me perguntaria?!

Bem, eu tenho desenvolvido algumas técnicas. Elas funcionam para mim – evidentemente, podem ou não funcionar para você:

  • Reservar algum tempo durante o dia para fazer atividades que me dão prazer;
  • Falar pouco – quase nada – e ouvir mais;
  • Prestar total atenção no outro mas, quando a conversa atingir níveis insuportáveis (ou se for o caso de manter contato com pessoas intragáveis), eu tiro a minha mente do local (hasta la vista, baby). Não me sinto na obrigação de aturar ladainhas ou “fa-lá-lá-lá” de ninguém. Também não gosto de ser indelicada e rude, portanto, eis o escapismo perfeito;
  • Não perder nem 10 minutos do meu tempo com vitrinismos ou conversas desnecessárias (fofocas, vida alheia, passar o tempo observando a rotina do outro em redes sociais, entre outros tipos de inutilidades);
  • Entender que o mundo não é um paraíso onde “eu faço só o que eu quero”, mas sim um lugar onde, muitas vezes, você precisa fazer “o que tem que fazer”;
  • Ficar ao lado das pessoas & animais que amo (99% deles moram fora, com exceção do meu marido e dos meus gatos, portanto, sempre dou um jeito: mando cartas, cartões (pois é!!! adoro!!), e-mails, torpedos de celular (não se surpreenda!) e mensagens pelo whatsapp. Ouço o que elas têm a dizer, o que pensam e o que sentem com 100% de atenção e empatia;
  • Tornar o relógio um amigo pessoal e não um inimigo capital.

Essas são algumas técnicas que estou desenvolvendo. Devo escrever um texto mais aprofundado e publicar. Deixo o link por aqui. Também quero falar sobre minhas impressões ao perambular pelos centros culturais. Inclusive, uma dessas perambulações me fez confrontar diretamente o meu passado e rever os meus objetivos, sonhos e a minha própria vida (sobre isso eu não quero falar, felizmente).

fantas
Dans mon monde

Fluxo de consciência # 14

A versão cinematográfica mais recente de Jane Eyre (2011) traz um diálogo entre Jane e St. John Rivers. É mais ou menos assim:

St. John: –  Achei um trabalho para você, mas receio que não seja digno de suas capacidades. Trata-se de assumir uma escola para meninas, filhas de aldeões, por 15 libras por ano. Como pode ver, muito simples.

Jane: – Eu aceito, Mr. St. John. Muito obrigada!

St. John: – Mas o que você vai fazer com todo o seu talento?

Jane: – Vou guardá-lo até que possa usá-lo novamente. Ele não vai sumir.

Life_01
Será só imaginação? Eu era uma lobisomem juvenil.

Pois é.

Nos últimos meses, reler o livro e assistir repetidas vezes ao filme (essa versão, digo) tem sido uma espécie de “agasalho” para o meu espírito. Ser nocauteada por circunstâncias “naturais”, “externas” e “rotineiras” já tem seu toque de dureza em si, imagine então receber “voadora” de pessoas & criaturas… Perceber o mau caráter, a maldade, a pilantragem, a armação, o charlatanismo…

Um amigo me diz sempre:

– O mundo é isso mesmo. Só tem esse tipo de gente para lidar e conviver, etc e etc.

Keller Dover, personagem de Hugh Jackman em “Os Suspeitos”, apontaria o dedo na minha cara e diria:

– Espere o melhor, mas prepare-se para o pior.

Pois é.

Smoke_01
No melhor feeling de “Get out!”

Fluxo de consciência # 13

Programei meu dia para realizar algumas atividades no centro da cidade. Antes de sair, dei uma garimpada em um grupo coletivo que indica depoimentos de assaltos e ações de violência no bairro. Descobri que não poderia sair de casa hoje, pois “homens armados” (expressão utilizada pela mídia, omitindo o termo real) ameaçaram comerciantes e moradores da região. Não é a primeira vez – e sem qualquer dúvida, não será a última – que esse tipo de ameaça paira sobre o Rio de Janeiro (especialmente na zona norte da cidade). Não há o que dizer. Sinto apenas cansaço ~ muito cansaço ~ de toda essa situação (e algumas outras). Prefiro concentrar minhas energias em outros “ciclopes”.

Estou conseguindo desenvolver algumas habilidades. Fico satisfeita que sejam fruto de decisões conscientes. Fiz uma lista de “projetos e metas” a alcançar para este ano e já consigo riscar alguns itens. Maaaaaas, ainda existem outros tantos pulando no meu rosto toda vez que abro o meu diário ~ encadernado e de papel, nada virtual.

Meu interesse em espiar as vitrines alheias está próximo do zero absoluto. Outra felicidade. É incrível a quantidade de paz que brota dessa atitude. Tenho conversado sobre isso com a minha irmã Rafa, com a Carol e com o Carlos e tem sido bem proveitoso. Uso apenas as funcionalidades básicas dos aplicativos e sites vinculados às redes sociais. Tudo no menor tempo possível. E mesmo o básico do básico tem me provocado um tédio profundo.

Baixei um livro interessante sobre meditação. Parei na página 18, mas pretendo retomar amanhã. Procrastinação é um veneno!

peace
Um silêncio islandês toma conta do meu coração.

Alguns dos meus livros, cadernos e manuais mais utilizados estão empilhados em um banco verde sem seguir nenhuma ordem. Está parecendo uma Torre de Pisa. Já sinto incômodo só de olhar. Tenho TOC com ordem, organização, limpeza, etc e etc. Mas isso não é muito difícil de notar – basta olhar os meus pertences.

dennis
Don’t throw the baby out with the bathwater