Mantra visual #2: Chuva

Chove desde cedo. Vários pontos da cidade estão alagados. Caos.

Ouço os pingos audaciosos baterem na minha janela antes de se lançarem em queda livre. Não há medo; pelo contrário: diante da efemeridade de todas as coisas, eles se entregam aos castelos de ar.

Cachorros latem ao longe – mas não tão longe. Novamente, os pingos de chuva. São quase 2h da manhã e a casa começa a ganhar vida.

Carros aceleram na pista molhada, enfrentando poças de água e pequenos córregos. Ao longe, o sinal de um portão eletrônico dispara. Vozes altas, como sempre, esnobam o silêncio da madrugada.

Chuva.

Sobre desencantos #6

Tenho um grande amigo ~ um dos melhores! ~ que, assim como eu, está vivendo o processo de “vida sem rastros” (ou quase sem rastros) nas redes sociais. Pelo menos, rastros disseminados por nós mesmos.

Esses dias – ontem, na verdade -, ele veio desabafar:

Best Friend: – Estou triste.

Moi: – Por que?

Best Friend: – Estou há três semanas longe das redes sociais e ninguém mais comenta nas minhas postagens, curte, etc e etc… (choradeira gótica). Parece que me esqueceram (mais choradeira gótica).

Moi: – Por que isso te incomoda tanto?

Best Friend: – Pô, meu! Quem gosta de ser esquecido????! (indignação)

Moi: – Essas pessoas com amnésia seletiva… Quem são?

Best Friend: – Não são amigões… Mas são amigos, colegas…

(interrompo antes que o alaúde toque novamente)

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Estratégia para o perfil do Instagram

Moi: – Antes de tudo, permita-me dizer: Não são amigos. Amigo que é amigo não esquece, não tem amnésia seletiva e, acima de tudo, respeita o silêncio ou dá seu jeito em ir atrás, saber o que está acontecendo, quais são suas motivações… Colegas e conhecidos… Desculpe, mas devem estar no modo “I don’t give a fuck” para você. Já assistiu “O Casamento do Meu Melhor Amigo?”

– Best Friend: – Já… Mas o que isso tem a ver?

– Moi: – Meu caro, você está correndo (lamentando) toda essa gente. E quem é mesmo que está correndo atrás de você?

(Silêncio).

– Best Friend (indignado, passando a peteca pra mim): – Você não se importa não, Mara? Galera não comenta mais nas suas coisas, não curte…

– Moi: – Não.

– Best Friend: – COMO NÃO?

– Moi: – Para mim, recíproca é coisa forte, entende?! Se não estão dando a mínima, por que eu deveria dar?

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Hello? I don’t care.

Fluxo de consciência # 14

A versão cinematográfica mais recente de Jane Eyre (2011) traz um diálogo entre Jane e St. John Rivers. É mais ou menos assim:

St. John: –  Achei um trabalho para você, mas receio que não seja digno de suas capacidades. Trata-se de assumir uma escola para meninas, filhas de aldeões, por 15 libras por ano. Como pode ver, muito simples.

Jane: – Eu aceito, Mr. St. John. Muito obrigada!

St. John: – Mas o que você vai fazer com todo o seu talento?

Jane: – Vou guardá-lo até que possa usá-lo novamente. Ele não vai sumir.

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Será só imaginação? Eu era uma lobisomem juvenil.

Pois é.

Nos últimos meses, reler o livro e assistir repetidas vezes ao filme (essa versão, digo) tem sido uma espécie de “agasalho” para o meu espírito. Ser nocauteada por circunstâncias “naturais”, “externas” e “rotineiras” já tem seu toque de dureza em si, imagine então receber “voadora” de pessoas & criaturas… Perceber o mau caráter, a maldade, a pilantragem, a armação, o charlatanismo…

Um amigo me diz sempre:

– O mundo é isso mesmo. Só tem esse tipo de gente para lidar e conviver, etc e etc.

Keller Dover, personagem de Hugh Jackman em “Os Suspeitos”, apontaria o dedo na minha cara e diria:

– Espere o melhor, mas prepare-se para o pior.

Pois é.

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No melhor feeling de “Get out!”

Sobre desencantos #5

Que o ser humano, em termos gerais, é uma espécie de espantalho egoísta, mesquinho e desprezível não resta a menor dúvida. No entanto, certos elementos alcançam o status de “hors concours” quando se trata de desrespeito e escr***dão.

Desde ontem, um grupo de pessoas que berra como uma cabrada usa um play (?), um terraço de casa de vila (?), um espaço público (?) para atormentar toda a vizinhança com sons altíssimos, atordoantes, incessantes, perturbadores. Ontem, a festa de Baco só terminou às 3h da manhã. Insuportável! Hoje, passei o dia todo querendo me concentrar, ler, fazer minhas atividades intelectuais… Quase sem sucesso.

Os cães chupando manga continuam com suas gritarias, suas músicas sobre traição, amores interrompidos, sobre “dar na cara dela” e coisas do gênero. A cidade está caótica, dominada pela criminalidade, perigando explodir em uma bolha de violência e desemprego maior do que já está e as pessoas continuam agindo como se nada disso fosse com elas ou sobre elas. Eu poderia repetir o jargão utilizado à exaustão por aí (a saber, o famigerado “lamentável!!!!”), mas prefiro massagear as minhas têmporas, fechar os olhos e treinar a respiração.

Quando não se há nada mais a dizer, não se diz nada.

Ne verbum quidem.

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Observar. Pensar. Sentir. Fazer.

Fluxo de consciência # 13

Programei meu dia para realizar algumas atividades no centro da cidade. Antes de sair, dei uma garimpada em um grupo coletivo que indica depoimentos de assaltos e ações de violência no bairro. Descobri que não poderia sair de casa hoje, pois “homens armados” (expressão utilizada pela mídia, omitindo o termo real) ameaçaram comerciantes e moradores da região. Não é a primeira vez – e sem qualquer dúvida, não será a última – que esse tipo de ameaça paira sobre o Rio de Janeiro (especialmente na zona norte da cidade). Não há o que dizer. Sinto apenas cansaço ~ muito cansaço ~ de toda essa situação (e algumas outras). Prefiro concentrar minhas energias em outros “ciclopes”.

Estou conseguindo desenvolver algumas habilidades. Fico satisfeita que sejam fruto de decisões conscientes. Fiz uma lista de “projetos e metas” a alcançar para este ano e já consigo riscar alguns itens. Maaaaaas, ainda existem outros tantos pulando no meu rosto toda vez que abro o meu diário ~ encadernado e de papel, nada virtual.

Meu interesse em espiar as vitrines alheias está próximo do zero absoluto. Outra felicidade. É incrível a quantidade de paz que brota dessa atitude. Tenho conversado sobre isso com a minha irmã Rafa, com a Carol e com o Carlos e tem sido bem proveitoso. Uso apenas as funcionalidades básicas dos aplicativos e sites vinculados às redes sociais. Tudo no menor tempo possível. E mesmo o básico do básico tem me provocado um tédio profundo.

Baixei um livro interessante sobre meditação. Parei na página 18, mas pretendo retomar amanhã. Procrastinação é um veneno!

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Um silêncio islandês toma conta do meu coração.

Alguns dos meus livros, cadernos e manuais mais utilizados estão empilhados em um banco verde sem seguir nenhuma ordem. Está parecendo uma Torre de Pisa. Já sinto incômodo só de olhar. Tenho TOC com ordem, organização, limpeza, etc e etc. Mas isso não é muito difícil de notar – basta olhar os meus pertences.

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Don’t throw the baby out with the bathwater

Fluxo de consciência # 12

Estou atravessando uma fase semelhante a um bosque escuro. Ao meu lado, tenho a Companhia Divina, um relicário com a foto das pessoas que eu amo pendurado no pescoço, certa força e coragem motivadas pelo sentimento de honra, amor e dever, e um mundo desconhecido do outro lado. Não faço ideia se vai valer a pena atravessar tudo isso, mas certamente DEVO FAZER VALER A PENA.

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Alguém???? Alguém toca na minha mão, caçamba!

Meu marido tem razão ao falar que Deus tem os planos certos para nós e, seja o que for que tivermos que atravessar, tudo está dentro de uma espécie de manuscrito cósmico universal. Mamãe também fala isso sempre. Confiando nessa lógica, até mesmo as minhas cabeçadas têm razão de ser; elas aconteceram e continuarão a acontecer exatamente como devem. Uma reflexão que não pode ser descartada.

Este é um blog público. Qualquer um que tenha acesso ao endereço pode entrar e perambular pelos meus ‘fluxos de consciência’. Felizmente, pouca gente tem real interesse nisso, o que é um IMENSO consolo. Fico feliz da minha família, dos amigos contados nos dedos e dos desconhecidos legais sempre cruzarem com os meus textos por aqui. Infelizmente, não dá para selecionar os endereços de ‘IPS’ e colocar ‘permitir’ ou ‘excluir’, não é? Paciência.

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Minha reação ao escutar ‘There’s never a forever thing’

Escutei ‘There’s never a forever thing’ (A-ha) e quase caio no choro. Estou muito sentimental. Sempre lembro das viagens que fazia com meus pais e irmã para o litoral quando escuto os sucessos do A-ha. Pensar nelas e nos passeios ao zoológico e parque botânico da minha cidade natal me enchem de paz e tranquilidade.

Lendo o livro ‘Osho de A a Z: um dicionário espiritual do aqui e agora’ pesquei a ideia de que o apego à felicidade (ou noção de felicidade, quase como uma obsessão) não vai te levar ao verdadeiro estado de paz/serenidade que você tanto procura. É um desafio enorme pular esse fogo sem se queimar ~ provavelmente, quase impossível.

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Tocando ‘Things Behind the Sun’, do Nick Drake, e se sentindo como o próprio Nick Drake. Ou seja…

Do que sinto saudades:

  • Minha família
  • Meus tios Ana e Luís
  • Perambular com a minha irmã pelo centro de Teresina
  • As praias de Luís Correia (PI) e de Fortaleza (CE)
  • Viajar de carro ouvindo A-ha e músicas dos anos 80/90
  • Olhar o céu estrelado e a lua do terraço da casa dos meus pais
  • Da quietude da madrugada em um lugar sem movimentação excessiva de carros
  • Do cantar do galo às 3h da manhã
  • Da Eni
  • Dos textos do Daniel Piza
  • Dos antigos shows de heavy metal de Teresina
  • De não pensar em nada
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Silêncio. Paz. Interior. Sur l’océan couleur de fer

Carlos escuta Estas Toone para se acalmar. Eu escuto Alcest, a trilha sonora de ‘Only Lovers Left Alive‘ e composições de William Lawes. Só de ouvir a voz do Neige já me sinto mais ‘calma’. Ele ~ ou qualquer membro da banda ~ nunca respondem qualquer interação que se faça (redes sociais e afins). Mas nem tento. Respeito. Acho que ele poderia falar por 7 horas seguidas em uma entrevista do tipo ‘fale qualquer coisa’ e eu ficaria ouvindo de boa, sem problema. Acho que o sentimento é mais ou menos como o do filme Julie & Julia. A gente fica criando ‘ídolos’ na nossa cabeça, mas eles só existem lá. Tipo o trecho da música do Morbydia (Saturnia): “E esse cosmos enorme em que tu reinas só existe no meu peito”. É por aí. Que mal há de fazer ficar com o Neige que eu ‘imagino’ ou ‘criei’ na minha cabeça (contanto que eu não vomite isso para fora, claro)?

Agora, sério: como alguém pode ficar agitada/o ouvindo esta voz? 😀

Melhor fazer o jantar.

Fluxo de consciência # 11

A cada dia que passa, sinto o silêncio renovar minhas forças. Não há barulho algum; não há ruídos. Não ouço mais os passos de ninguém esbofeteando o linóleo.

A chuva bate na minha janela educadamente ~ ela nunca atrapalha os meus devaneios e projetos. Vejo as sombras gesticulando como fantoches fantasmas em vitrines nebulosas, mas não reconheço nada e nem ninguém.

Finalmente, começo a andar pelo pântano de forma anônima. Não sou observada, mas observo.