Kafka é mais forte do que a ***

Ontem, eu estava com um volume considerável de papéis para ler. Entre eles, a temida *** (não vem ao caso do que se trata. O que importa é a história). Só de olhar para a ***, meu estômago embrulha. É um misto de chatice, problematização e complexidade que é difícil fazer o sinal de legal e sorrir.

Em dado momento, parei para respirar e decidi garimpar um pouco pela internet. Achei um conto de Kafka (Um Médico de Aldeia) e não resisti – tentei, mas não consegui. É incrível, fascinante e angustiante – quem está com deadlines a todo vapor sabe disso – como a literatura pode ser o redemoinho, o furacão, a perdição ou a paixão bandida de alguém. Olhei para a *** e depois para Kafka. Foi fácil demais escolher.

cigarretes
Tenha nervos.
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Bastidores: Todas as Manhãs

Eu e a minha irmã vamos lançar outro livro pela Amazon. Durante quatro meses, ouvimos conversas, seja como confidentes voluntárias ou fortuitas, passeamos por lugares públicos onde é possível “observar sem ser observado”, como bibliotecas, museus, parques, hall de cinemas e cafés.

notebooks
Meus cadernos e agendas de anotações (:

Uma distância de 4 horas (voo direto) ou 8 horas (voo com uma conexão) está entre nós. Mas temos nossas armas secretas, nossos códigos, táticas, estratégias… Nossos modos de nos fazermos presentes em dois lugares ao mesmo tempo. Ora essa, se o personagem de Jeremy Irons conseguiu fazer isso em “Lembranças de um amor eterno“, por que razão nós não conseguiríamos elaborar um plano melhor (tendo em vista a vantagem de estarmos vivas ~ ops, ameaça de spoiler)?

Estamos nos divertindo muito ao utilizar nossas experiências, misturá-las e criar histórias. Fico feliz pela minha irmã também ter se apaixonado por ‘ficção-real’ e, em contrapartida, apresentado ao meu cérebro um pouco de fantasia. 🙂

Outras coisas vão surgindo aos poucos. Do nosso modo, vamos espalhando a semente.

Amanhã escrevo mais sobre “Todas as Manhãs” e deixo o link de acesso para compra.

Literatura: Lista de Resenhas, Críticas e Ensaios

Daniel Piza

Mistérios da Literatura

Noites Urbanas

As Senhoritas de Nova York: Descoberta de Pablo Picasso

Stephen King

Mr. Mercedes

Achados e Perdidos

Último Turno

Mario Vargas Llosa 

Cinco Esquinas

Elogio da Madrasta

Travessuras da Menina Má

David Nicholls

Um Dia

Terry Lynn Taylor

Os Anjos: Guardiães da Esperança

Svetlana Aleksiévitch

Vozes de Tchernóbil

 Antoine de Saint-Exupéry

O Pequeno Príncipe

Judith Farr

Nunca lhe apareci de branco

Agatha Christie 

Convite para um homicídio

A Aventura do Pudim de Natal

O Cão da Morte

A Casa do Penhasco

Depois do Funeral

Sócios no Crime

Um Pressentimento Funesto

Os Elefantes Não Esquecem

Patricia Highsmith

Carol

Joe Hill

A Estrada da Noite

Coletânea – Vários Autores

Contos Clássicos de Vampiros

Histórias Medonas d’O Recife Assombrado

Eleanor H. Porter

Poliana

Katherine Mansfield

Cinco Contos

Kristin Hannah

Amigas para Sempre

Por toda a Eternidade

Jardim de Inverno

Gilberto Dimenstein

O mistério das bolas de gude

Lya Luft

A riqueza do mundo

Liev Tolstói

A Morte de Ivan Ilitch

Carlos Drummond de Andrade

Contos Plausíveis

Andrew Pyper

O Demonologista

Grégoire Delacourt

A lista dos meus desejos

(Continua….)

A hora e a vez das criaturas da noite

Nos últimos anos, o público leitor, espectador e consumidor de “literatura noturna” tem mergulhado em piscinas de águas rasas e bocejantes no que se refere à figura do vampiro. Trabalhos como a trilogia “Crepúsculo” ou a série televisiva “The Vampire Diaries” (Diários de um Vampiro) estão aí para romantizar e humanizar as criaturas da noite. A ideia não deveria ser necessariamente ruim, mas está longe de representar o vampiro em toda a sua magnitude, revelada pelas tradições seculares do leste europeu que tornaram sua existência um clássico. Em “Contos clássicos de vampiro” (tradução de Marta Chiarelli, 2010, págs. 266), a editora Hedra brinda todos os fãs do gênero com uma coletânea que abrange um século de narrativas sobre os sugadores de sangue.

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A obra é sensacional por vários motivos; um deles está inteiramente relacionado à introdução escrita por Alexander Meireles da Silva, doutor em Literatura Comparada pela UFRJ e especialista em literatura fantástica. O material é imperdível: de forma completa, Meireles discorre sobre a origem do nome vampiro, suas várias denominações e como a cultura de diferentes povos no decorrer dos séculos ajudou a moldar a lenda dos sanguinários mortos-vivos. O pesquisador explica como os rituais fúnebres e o próprio simbolismo do sangue, associados à multiplicidade étnica, religiosa e cultural dos povos eslavos, ajudaram a fortalecer mitologias e recriar histórias orais. Para o homem de séculos passados, a ligação com o universo sobrenatural era algo tão próximo e concreto como a sobrevivência no mundo físico. Portanto, os mortos e os vivos deveriam permanecer em suas respectivas dimensões.

Um dos procedimentos de origem pagã adotados para que o morto fizesse uma passagem tranquila até o além estava relacionado aos gatos. Culturalmente associados ao sobrenatural (lembre-se das bruxas, feiticeiras e dos felinos que perambulam por cemitérios), esses animais deveriam ser expulsos de qualquer casa em que estivesse sendo realizado um velório, pois, se piruetassem em cima do corpo, o morto seria condenado a vagar sem descanso pela Terra. Nem mesmo o ciclo menstrual feminino escapou das “regras para manter um cadáver defunto”: associada à impureza, a mulher menstruada não poderia tocar o falecido. Outra crença antiga faz referência a espelhos e reflexos de água, que deveriam ser prontamente cobertos para não capturarem a alma do morto. A pesquisa de Alexander Meireles é ampla e explana também o vampiro dentro do universo literário. Para quem acha que Drácula, obra clássica de Bram Stoker, é o começo de tudo, a introdução do livro aponta novos autores e obras – muitas vezes, desconhecidos do grande público.

Os contos pertencem a ‘cometas’ como Lord Byron (Trecho de um romance), Bram Stoker (O Hóspede de Drácula, conto que foi retirado pelos editores de seu famoso livro devido a sua extensão), Francis Marion Crawford (Porque o sangue é vida, um dos melhores escritos do gênero, sem dúvidas), Théophile Gautier (A morta amorosa, um conto brilhante que associa a figura feminina vampira à luxúria, criando a atmosfera de ‘femme fatale’), F.G. Loring (autor que eu desconhecia antes de ler A tumba de Sarah, narrativa que também faz da vampira uma defunta fatal e aristocrática) e M. R. James (Um episódio da história da catedral, em que impera o suspense até o desfecho final). Por meio da coletânea, conheci o trabalho do anônimo John Polidori (médico particular de Byron e participante da roda literária tenebrosa que reuniu Byron, Shelley, Mary Godwin – futura Mary Shelley – e Claire Clairmont, irmã de Mary), autor de O Vampiro.

O apêndice do livro prioriza ainda mais as origens da figura vampírica na literatura e nos registros antigos; nele, é possível ler Vida de Apolônio de Tiana, atribuído a Filóstrato, um dos relatos da Antiguidade mais célebres no que diz respeito às criaturas bebedoras de sangue. A obra influenciou o poema “The Lamia”, de John Keats. Também é possível ler o poema “O Vampiro”, escrito por Heinrich August Ossenfelder e creditado como o primeiro poema vampiresco da literatura alemã; “Lenore”, poema de Gottfried August Bürger; “A noiva de Corinto”, do conhecido inspirador de ‘depressões’ Johann Wolfgang von Goethe e o erótico “Christabel”, de Samuel Taylor Coleridge.

Os contos foram bem selecionados e, sem a menor dúvida, apresentam muitos autores e obras, anteriormente desconhecidos, ao público. A única falta que senti foi de “Carmilla”, novela de Sheridan Le Fanu, uma genuína ode à vampira que seduz, ama e é livre das amarras convencionais. Para os devotos do estilo, a leitura é uma viagem completa, com direito à passagem de ida e guia turístico. A volta fica por sua conta e risco, pois “os mortos viajam depressa”.

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Texto publicado na Revista Biblioo.