Reminiscências #3

Na gruta, no fundo do mar. A respiração é uma miragem. Dormindo na cripta, com medo de acordar. Limpeza pausada e leve. Por dentro, para dentro e de dentro.

Salão de festas, várias pessoas conversando. Álvares de Azevedo conversa com Shelley. Esse é outro tempo, outra dimensão. Uma mulher se desequilibra e derrama vinho no chão. Cavalheiros acodem. As portas são brancas, pesadas. Um dos cômodos dá para uma imensa árvore centenária. Ela ainda está lá.

Crônicas de uma andarilha pós-Idade Média #2

O frescor da caminhada silenciosa e anônima, sem outro registro além da própria mente. Andar com o pensamento livre, solto, tranquilo, depositando as perturbações e a “ordem do dia” em lugares temporariamente inacessíveis, desabitados.

Durante esse andar silencioso, não há rostos conhecidos, nem vozes ecoando acima do permitido, nem tentáculos de polvo abissal, nem “a máscara da morte rubra” e nem “a queda da casa de usher“. Só há o silêncio.

Os carros passam desesperados, as buzinas pipocam no ar; moradores de rua discutem entre si e logo mais batem boca com transeuntes e policiais; meninos tentam roubar a carteira de uma velha distraída. Eles não devem ter mais do que treze anos e andam em grupos, na espreita, como aves de rapina recém formadas. Apesar da agressividade, dos ataques violentos e do risco, é possível notar que o olhar de alguns deles oscila entre raiva e tristeza.

O vendedor de empadas buzina às 17h. Mudou de horário, agora passa às 18:30h. Sinto o cheiro de amendoim torrado, churros e espetinho. Os aromas se misturam e fico sem saber o quê vem de onde. Mas não tem importância. Minha mente está em paz.

O sono tem me feito companhia. Sono e cansaço. Por enquanto, vai ser assim. Mas está tudo certo. Contanto que eu possa caminhar sem assistir aos números de palhaços de circo, fico feliz e tranquila. Não há o que eu possa desejar mais.

Quero abrir mão dessa surmenage emocional e manter intacto o meu poder de conservar a serenidade mesmo no olho do furacão e de aproveitar minhas reminiscências.

Reminiscências #2

Um carro vermelho passa lentamente pela rua. Parece que está se arrastando. Em algum lugar, um cachorro late repetidamente. O sol vem se despedir do topo das árvores e um vento tímido também aparece.

Estou em 2017, mas sinto como se estivesse em 1930. Basta fechar os olhos. O pássaro que canta aqui também cantou por lá. É apenas uma questão de dimensão, de estar entre dois mundos.

 

Reminiscências #1

Estou sentada em frente à janela principal do meu apartamento. É um daqueles janelões enormes, que vão de uma ponta da parede à outra, quase alcançando o teto e o chão. Terminei de escrever alguns textos e estou encerrando o meu turno por hoje.

A rua em frente ao meu prédio está vazia, sem movimentação – o que, devo falar, só acontece na mais alta madrugada. Olho para os poucos carros que, vez ou outra, estão se aventurando a entrar nela – para pegar outro atalho logo mais. Na verdade, essa é uma rua feita para atalhos.

Quase no final dela, há dois postes acesos. A luz é laranja e brilhante. Quando detenho meu olhar nela, lembro de um lugar em que não estive – parece ser de outro século. Olho para as luzes mas vejo lampiões, ou algo do gênero. Trata-se de uma cidade pequena, perdida no tempo. É noite. Não faço ideia do que isso pode significar. Na minha auto-hipnose, vejo pessoas de casacos pesados caminhando pela rua. É noite, mas tudo parece seguro. Não sei que lugar é esse.