Fluxo de consciência # 15

Nem por um segundo sou capaz de questionar a maravilha que é o inverno. Mas, como nem tudo é perfeito, há algo de podre na estação mais completa de todas: os dias viram noites prolongadas. E rápido, muito rápido.

Não que eu desgoste da noite – pelo contrário, sou extremamente grata. É o meu período mais criativo -, mas fica impossível perambular pelas ruas da cidade ou tentar dormir por horas seguidas. Tenho insônia, meu prédio e minha rua são barulhentos – um arrastar sem fim de móveis no andar de cima, gritos vindos da rua (vozes histéricas, brigas, gargalhadas insanas), motor de veículos e os insuportáveis ônibus (pelo menos um intermunicipal passa por aqui)… Sem contar as intermináveis motos e suas buzinas.

Além disso, não se pode flanar pelas ruas como nos bons tempos do século XIX – que tinha lá seus perigos e marmoteiros, afinal… Mas acho que a violência urbana atual – daqui e de outros locais – é tão sufocante que ficar em casa ainda é a melhor opção (pelo menos para mim).

rj_1854
RJ: O vento no rosto e a calmaria de 1854

Tenho trabalhado até tarde – para freelancer, não existem férias -, dormido pouco, assistido a filmes e séries e lido algumas coisas (menos do que gostaria). A grande felicidade dos dias tem sido a capacidade de escrever com fluência, rapidez e leveza. Preciso admitir: escrever sem engasgar é ouro puro! ❤

Nos últimos dias, flanei por alguns espaços culturais e conferi exposições. Falarei disso outro dia (ou não). Entre uma instalação artística e outra, alguns questionamentos pipocaram na minha cabeça: a quem interessa manter o povo longe do conhecimento, da arte, de todo o seu esplendor, vigor e fruição? Por que continuamos alimentando a ideia de que a intelectualidade é “talento” para poucos? Ou ainda – e mais importante: Como ousamos nós, oh intelectuais abastados ou em processo de ascensão, apontar o dedo na cara de pessoas que trabalham de segunda a sábado, em longas jornadas diárias, com salários que não fazem nem cócegas nos pés de ladrões engravatados – veja, eles falam em “milhões” (propina de 2 milhões, 1 milhão, 500 mil… que dinheiro é esse, eu me pergunto?! que soma é essa que nem imagino que exista?), exigindo que tenham a obrigação de se interessar pelas esculturas de Lasar Segall, ler Machado de Assis e decodificar suas ironias brilhantes, ouvir William Lawes, se deliciando com suas composições barrocas, e cair em euforia ou catarse ao observar uma tela de Iberê Camargo?

Quanta hipocrisia nesse país afundado, meu Deus! Tenho pensado nisso todos os dias e meu estômago embrulha. Planos e esforços hercúleos para terminarmos como Sísifo. Puxa vida!

train
A quem interessa que eu me torne um animal mecânico? A quem?

No coração da cidade, as pessoas parecem estar cada vez mais loucas, mau humoradas, indiferentes, resmungonas, chateadas, frias, trapaceiras, desinteressantes e mortas-vivas. E claro: alguém tem que pagar. E esse alguém, geralmente, é o seu próximo.

A cada novo dia que nasce, defendo a criação de um templo interno onde você consiga se resguardar da sandice que é viver em um umbral. Falo de modo geral, e não apenas da cidade em que resido no momento. Ou você constrói seu templo sagrado ou você vai ser despedaçado. Como grita James Hetfield com sua voz rasgada: “Sad but true”.

E como criar um templo interior, você me perguntaria?!

Bem, eu tenho desenvolvido algumas técnicas. Elas funcionam para mim – evidentemente, podem ou não funcionar para você:

  • Reservar algum tempo durante o dia para fazer atividades que me dão prazer;
  • Falar pouco – quase nada – e ouvir mais;
  • Prestar total atenção no outro mas, quando a conversa atingir níveis insuportáveis (ou se for o caso de manter contato com pessoas intragáveis), eu tiro a minha mente do local (hasta la vista, baby). Não me sinto na obrigação de aturar ladainhas ou “fa-lá-lá-lá” de ninguém. Também não gosto de ser indelicada e rude, portanto, eis o escapismo perfeito;
  • Não perder nem 10 minutos do meu tempo com vitrinismos ou conversas desnecessárias (fofocas, vida alheia, passar o tempo observando a rotina do outro em redes sociais, entre outros tipos de inutilidades);
  • Entender que o mundo não é um paraíso onde “eu faço só o que eu quero”, mas sim um lugar onde, muitas vezes, você precisa fazer “o que tem que fazer”;
  • Ficar ao lado das pessoas & animais que amo (99% deles moram fora, com exceção do meu marido e dos meus gatos, portanto, sempre dou um jeito: mando cartas, cartões (pois é!!! adoro!!), e-mails, torpedos de celular (não se surpreenda!) e mensagens pelo whatsapp. Ouço o que elas têm a dizer, o que pensam e o que sentem com 100% de atenção e empatia;
  • Tornar o relógio um amigo pessoal e não um inimigo capital.

Essas são algumas técnicas que estou desenvolvendo. Devo escrever um texto mais aprofundado e publicar. Deixo o link por aqui. Também quero falar sobre minhas impressões ao perambular pelos centros culturais. Inclusive, uma dessas perambulações me fez confrontar diretamente o meu passado e rever os meus objetivos, sonhos e a minha própria vida (sobre isso eu não quero falar, felizmente).

fantas
Dans mon monde

Sobre desencantos #5

Que o ser humano, em termos gerais, é uma espécie de espantalho egoísta, mesquinho e desprezível não resta a menor dúvida. No entanto, certos elementos alcançam o status de “hors concours” quando se trata de desrespeito e escr***dão.

Desde ontem, um grupo de pessoas que berra como uma cabrada usa um play (?), um terraço de casa de vila (?), um espaço público (?) para atormentar toda a vizinhança com sons altíssimos, atordoantes, incessantes, perturbadores. Ontem, a festa de Baco só terminou às 3h da manhã. Insuportável! Hoje, passei o dia todo querendo me concentrar, ler, fazer minhas atividades intelectuais… Quase sem sucesso.

Os cães chupando manga continuam com suas gritarias, suas músicas sobre traição, amores interrompidos, sobre “dar na cara dela” e coisas do gênero. A cidade está caótica, dominada pela criminalidade, perigando explodir em uma bolha de violência e desemprego maior do que já está e as pessoas continuam agindo como se nada disso fosse com elas ou sobre elas. Eu poderia repetir o jargão utilizado à exaustão por aí (a saber, o famigerado “lamentável!!!!”), mas prefiro massagear as minhas têmporas, fechar os olhos e treinar a respiração.

Quando não se há nada mais a dizer, não se diz nada.

Ne verbum quidem.

eye_01
Observar. Pensar. Sentir. Fazer.

A traquinagem de Fenrir

Fenrir, um dos meus felinos, foi protagonista de uma brincadeira de super mau gosto esses dias.

Depois de chegar do almoço, resolvi passar algumas roupas e organizar os lençóis e fronhas no armário. Como o ferro fica extremamente quente e o fio que o liga à tomada é curto, sempre fecho a porta do quarto (minha área de serviço é pequena e costumo passar roupa no quarto ou na sala).

Enquanto eu executava o serviço e ouvia música (Alcest e Tristania, para ser mais exata), Fenrir se esgueirou pelo outro quarto (conhecido aqui em casa como o quarto “dos meus pais e irmã”) e, sorrateiramente, entrou no guarda- roupa. Sem notá-lo ou imaginar que ele estava lá, Carlos colocou o cinto no cabideiro interior e trancou a porta.

Já havia se passado uma meia hora quando dei por falta de Fenrir. Entrei em desespero. Onde poderia estar meu gatinho?  Eu e Carlos procuramos pela casa toda e nada. Teria ele arrancado a tela de segurança? Não. Escapado pela porta da frente? Ela não foi aberta. Entrado em alguma pilha de livros? Não. Imaginei até que ele pudesse ter sido abduzido (sem sacanagem). Fique em pânico!

Abrindo a porta do guarda-roupa por reflexo, dei de cara com aqueles olhinhos azuis pulando do meio da roupa, enchendo-as de pelos. Fenrir estava com uma cara super tranquila, como se estivesse voltando de um passeio em Veneza.

Fiquei tão nervosa que precisei me sentar na cama depois de tê-lo achado. Que desfaçatez, hein?!

Fluxo de consciência #6

Pensei em listar os meus filmes e profissionais favoritos entre os indicados ao Oscar 2017, mas lembrei que não assisti a todos os filmes e nem estou por dentro da escalação completa. É incrível o poder soterrador da rotina ~ especialmente se você ainda está atravessando a corda bamba que apontará o caminho até os seus sonhos. Depois de percorrer o fio mole e imprevisível sem cair no abismo, você chegará a uma espécie de bosque nebuloso, frio, soturno, e precisará guiar a si mesmo até o portão escrito ‘saída’ (na maioria das vezes, sua única ajuda será a luminária fraca, bruxuleante, que é alimentada pela sua fé).

sleep

Depois disso, precisará caminhar pelo deserto sem morrer ou, pior, sem ser devorado vivo pelos açougueiros do ar e da terra, abutres e hienas sorrateiros. Quando você pensa que alcançou o castelo, ainda há uma ponte cercada por crocodilos, cobras peçonhentas e, acredite, tubarões abissais.

Metaforicamente, é assim que enxergo a jornada que preciso encarar para, enfim, poder deitar a cabeça no travesseiro e dormir um sono sem sonhos e, muito menos, pesadelos. Claro, quero sentir esse tipo de sono ainda viva, respirando, com o coração pulsando e bombeando sangue para todo o corpo, e não quando alcançar o estado conhecido por ‘ a sete palmos do chão’.

Voltando ao que interessa, não fiz a lista dos meus favoritos – e nem vou fazer. Quero terminar os últimos trabalhos que peguei, sorrir um pouco entre amigos em um churrasco para o qual fui convidada, continuar a reler ‘Carrie, a estranha’, recomeçar meu novo livro (romance) e dar os retoques finais no último (drama), ouvir pela milionésima vez o CD Kodama, da banda francesa Alcest, assistir ‘Orange is the new black’ (que abandonei na 4 temporada por puro desinteresse), rever ‘Sherlock’ (aprendi recentemente a pronunciar o nome do Benedict Cumberbatch e descobri que mais um zilhão de pessoas também têm – ou tinham – essa dificuldade) e suspirar platonicamente por Toby Stephens e Zach McGowan em Black Sails. Na série, ambos interpretam piratas fortes, agressivos e, claro, sujos (banho em alto mar era luxo máximo. Nem mesmo os reis e a corte tinham esse privilégio. Basta conferir 1808, de Laurentino Gomes, para mergulhar um pouco nesse universo marítimo).

Também gosto de observar meus gatos e suas poses estranhas! Adoro quando eles ronronam e chegam perto de mim esfregando suas cabecinhas fofinhas em meus pés e pernas, pedindo carinho e miando! Nossa, como eu amo Fenrir e Foucault!

Ainda estou aprendendo a lidar com a pá de concreto atirada pelo cotidiano. Espero conseguir antes de me desintegrar. Por enquanto, termino com uma imagem que traduz o meu estado de espírito nos últimos tempos:

hautings
Garimpada da internet (fonte desconhecida por mim)

Playlist – Fevereiro de 2017

Lista de músicas e/ou álbuns que tenho ouvido em fevereiro:

  • Aventine (álbum), de Agnes Obel
  • Kodama (álbum), de Alcest
  • Bloodflowers (álbum), de The Cure
  • This Time Around (álbum), de Hanson
  • Jayne Eyre (original Motion Picture – álbum), de Dario Marianelli
  • 1:19 (música), de Lacuna Coil
  • Cold Heritage (música), de Lacuna Coil
  • Swamped (música), de Lacuna Coil
  • Heaven`s a Lie (música), de Lacuna Coil
  • Comalies (música), de Lacuna Coil
  • L`Étranger (música), de Tiê e Thiago Pethit
  • A Love Before Time (música), de Yo-Yo Man, Tan Dun e Jorge Calandrelli
  • Together (música), de The XX
music
Créditos: Music is my life tumblr

Dicas para economizar no supermercado

Faz pouco mais de dois anos que me casei, mudei de cidade e dou conta das aventuras & desventuras da vida. Nesse tempo, fui aprendendo mais sobre economia e gerenciamento doméstico, afinal, administrar é também saber lidar com a escassez (e como!).

Durante 27 anos da minha vida (ou seja, quase a minha existência inteira), acompanhei uma série de técnicas econômicas que meus pais desenvolveram para aplicar no dia a dia. Muitas vezes, eu e minha irmã nos questionávamos do porquê de tanto metodismo e suprema organização. Em nossas cabeças, parecia que nossos pais estavam em uma missão da ONU (Legião Urbana e Elis Regina explicam isso melhor em suas famosas canções). Pois bem: anos se passaram, mudanças chegaram e cá estou eu para compartilhar um pouco do que aprendi e outro tanto do que venho desenvolvendo ao lado do Carlos.

Separei algumas dicas que têm auxiliado muito na minha rotina, em especial nesse momento de caos financeiro e social que parece que nunca termina. Todo o país tem sentido o efeito da inflação e, em algumas cidades surrealmente caras, como o Rio de Janeiro, essa sensação é ainda mais aguda. Depois dos queixumes, seguem as dicas:

1 – Faça uma lista dos produtos

Essa lista pode ser feita de forma manual (como o exemplo abaixo) ou por aplicativos como o Out of Milk (visual clean, com ótimos recursos como lista de compras, itens que já estão na despensa, o que evita o desperdício, e lista de tarefas). É uma opção bem interessante para quem não quer lidar com listas manuais. Eu confesso que ADORO as listas manuais porque já aconteceu do meu parceirão Moto G me deixar na mão em pleno supermercado por causa de uma travada espetacular. Para quem não tem problemas com isso, o Out of Milk é uma boa opção (existem outros aplicativos, mas só testei esse, então…).

lista_shop
Minha lista ~manual~ de compras

De forma organizada e direcionada, vai ser possível saber quais são os hábitos de consumo da sua casa e determinar quais e quantos produtos são realmente necessários. Outro conselho interessante é dividir a lista por seção. Eu, por exemplo, divido em três grandes seções: Alimentação / Higiene Pessoal / Limpeza. Com a lista, vai ser possível comprar dentro das suas necessidades e deixar de lado aquela ideia ‘nada consciente’ de “comprar para sobrar”.

2 – Confira o que você já tem na despensa e na geladeira

Antes de ir às compras, é importante que você dê uma olhada nos itens que já tem armazenados na sua despensa. Por exemplo: aqui em casa, consumimos muito macarrão e ervilha desidratada, mas consumimos muito pouco enlatados e congelados. Na hora das compras, sempre dou um check em todos os itens que já tenho na quantidade de nosso consumo.

Um detalhe: frutas e legumes não constam em nossa lista de supermercado porque compramos semanalmente para evitar desperdícios. E sempre damos preferências às feiras e hortifrutis, pois encontramos alimentos mais fresquinhos.

3 – Mantenha uma tabela de gastos

Eu e Carlos elaboramos uma planilha no Excel para anotar todos os nossos gastos. Conferimos os valores das notas e comparamos os preços. Onde gastamos mais? Por que? O que aumentou? O que diminuiu? Essa é uma importante ferramenta de controle e de informação dos níveis inflacionários.

4 – Faça uma pesquisa nos estabelecimentos

Bater perna e comparar preços é essencial para a saúde do seu bolso. E acredite: os valores variam muito de lugar para lugar. Um exemplo: o preço da manteiga em uma grande rede de supermercados perto da nossa casa custa, em média, R$ 8,00 reais. Seis quadras depois, em um mercado menor, a manteiga pode custar R$ 5,00 reais (em promoções frequentes). O mesmo vale para a dúzia de ovos. Então, arrisque e compare os preços.

shop_01
Com o carrinho e as sacolas (guardadas no carrinho) antes das compras

5 – Não vá ao supermercado com a barriga gritando

Entrar em um supermercado quando se está com fome é um prato feito (sem trocadilhos) para sugestionamentos de toda espécie. Quando nota, você nem deveria ter comprado aquela barra de chocolate enorme ou aquele pão doce coberto por açúcar refinado. Ou ainda pode duplicar a quantidade dos produtos porque sua barriga gritou forte. Evite esse tipo de hipnose.

6 – Saiba fazer escolhas

Entenda que não se pode ter tudo ao mesmo tempo e o tempo todo. Portanto, saiba selecionar entre os produtos mais caros. Faça acordos consigo mesmo: “Ok, vou levar esse desengordurante que custa R$ 11,00 reais, mas vou deixa o difusor de banheiro que custa R$ 10,00”. Saiba escolher o que é mais importante para você. Nas próximas compras, faça um rodízio.

7 – Cuidado com as promoções

Mais uma vez, compare preços e produtos. Não acredite de cara nas promoções do supermercado do tipo “Leve 3 pague 2”. Faça um cálculo rápido e compare preços unitários com o valor total da venda de quantidades.

E uma última dica extremamente importante:

8 – Leve a calculadora

Vá somando os preços dos itens que coloca no carrinho. Veja se ultrapassou o seu orçamento, selecione, retire ou coloque. A calculadora também evita algumas confusões que podem acontecer no caixa, como passar o mesmo produto duas vezes pela máquina registradora. Calculando os valores, você tem maior controle e direciona de forma consciente o que vai e o que fica.

Pode dar um pouco de trabalho até você pegar o embalo mas, se tem uma coisa que vi acontecer na casa dos meus pais e que estou começando a ver agora, na minha própria casa, é:

Cada passo que você dá na sua vida com meta, propósito e consciência, é um degrau a mais que você sobe até o paraíso dos seus sonhos. 🙂