Feeling Vampiresco

Em uma coisa, pelo menos, eu e os vampiros temos muita afinidade: sofremos de sensibilidade profunda ao sol.

Eu amo o sol! Gosto demais do amanhecer, das primeiras horas da manhã despertando o mundo mais uma vez, dos cândidos raios solares atravessando janelas e cortinas para chegar até nós, oh, escravos de Morfeu! Essas pequenas ações da natureza me causam profundo regozijo.

No entanto, depois das 6 horas da manhã, no massacrante período conhecido como Verão – auxiliado por sua meiga parceira conhecida como Primavera -, meus olhos queimam. Sim, meus amigos, é exatamente isso: meu corpo entra em combustão.

Não consigo ler ou ficar muitas horas parada em um lugar iluminado. Se pensar em utilizar o computador, por mais que o contraste e a iluminação do aparelho estejam no mínimo, vou desenvolver uma enxaqueca teimosa, que só me abandonará – e se abandonar – depois de ser expulsa a pontapés por analgésicos. Mas como tudo tem um preço, os analgésicos cobram o seu. Só consigo utilizar máquinas com telas que reproduzem luminosidade se eu estiver em ambiente fechado, com todas as cortinas cerradas e fazendo uso de luz artificial.

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Portanto, eu tento o máximo possível – e impossível – evitar o sol entre 10h da manhã e 17h da tarde. O que acabou gerando um outro problema: em um exame de sangue feito no começo do semestre, foi constatado que meu corpo estava com insuficiência gritante de vitamina D (a danada da vitamina solar!).

Por conta disso, eu fiquei fraca, sem força ou ânimo para quase nada, com queda de cabelo e certa melancolia. Também fiquei doente com mais frequência e tive “inexplicáveis” dores no corpo. Enfim, tive que voltar para o sol de novo.

“E por que você não usa óculos escuros?”, podem perguntar os especialistas. Bem, eu uso óculos de grau, não me dei bem com lentes de contato e precisaria solicitar a fabricação de óculos escuros com grau apropriado. No momento, não estou nenhum pouco a fim de desembolsar uma nota para isso. “I am sorry, guys!”.

A fotofobia é a principal ligação que tenho com o mundo vampiresco. Ah, e claro: o efeito combustão. Quem conhece o personagem Shishio Makoto, do anime e mangá Rurouni Kenshin, já deve imaginar o que é isso. Em níveis menos drásticos, devo salientar.

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Os sons que não ouvimos

Como já mencionei anteriormente, moro em uma rua movimentada. Há diversos tipos de sons por aqui: tráfego intenso, buzinas desmioladas, motos com escapamento barulhentíssimo (e por favor, não chamem de “escapamento esportivo”), latidos ininterruptos, conversas gritantes de transeuntes, caminhão de lixo, briga de vizinhos, playlist do rapper que mora em frente e o estalar de latas de refrigerante e cerveja sendo esmagadas.

Durante meses, devido ao meu estado de espírito, eu só fui capaz de ouvir esses sons. Até que, depois que dei início a um ciclo de renovação e meditação na minha vida, me dei conta de que existem outros sons… E eles são maravilhosamente lindos! Há o canto dos inúmeros passarinhos – e começa bem cedo, aproximadamente 5:30h da manhã -, o chamado da trupe de maritacas que sobrevoam a região, o miado manhoso dos meus gatos, o canto do galo que mora nas redondezas – apelidado aqui em casa carinhosamente de Teresino ❤ – , o latido dos cachorros chamando os seres humanos para apreciar o nascer do sol, o som do ventilador circulando no quarto, a respiração tranquila de meu marido, um ou outro ônibus que passa sem a pressa habitual das 7 horas da manhã, o ruído de alguém mexendo nas panelas e ligando o chuveiro… Esses e muitos outros sons que sinalizam que mais um dia está começando.

Acordar cedo é um privilégio e me sinto grata e contente por poder fazer isso todos os dias. Sempre levantei antes do amanhecer quando morava em Teresina. Quando me mudei para o Rio de Janeiro, esqueci um pouco a importância desse hábito – meu horário de trabalho e rotina mudou – e fui deixando de lado. Comecei a sentir muita falta de alguma coisa, mas não sabia ao certo do que se tratava. Foram necessários quase três anos para que eu, saindo da letargia, percebesse que essa necessidade estava me fazendo imensa falta. Resolvi alterar esse fato no meu cotidiano. Desde então, tudo tem sido infinitamente melhor.

Levanto antes do despertar dos primeiros raios de sol, ouço todos os sons que me cercam e agradeço sempre por ter a oportunidade de viver nesta dimensão por mais um dia!

A voadora que recebi da alergia

Tenho alergia à poeira, mofo, fuligem e poeira de obra. Na casa dos meus pais, a casa é mantida no mais absoluto rigor no quesito limpeza (e em vários outros também. Hehehe). Tudo está sempre limpo, espanado, organizado… A casa inteira exala perfume, lavanda do campo, esses cheiros bons. 🙂 (saudades!)

Quando me mudei, comecei a criar o ritmo que me agrada aqui em casa. Sou virginiana xiita, alérgica e Tipo 1 no Eneagrama, então, você pode imaginar que as minhas afinidades com o estilo de vida que me acompanhou por 27 anos não são imposições. Pelo contrário: foram bons anos de aprendizado para manter tudo fluindo.

No entanto, mesmo mantendo a casa com cuidados marciais de limpeza e organização, moro em frente a uma rua movimentadíssima, com carros passando o tempo inteiro, congestionamento e outros falálás. Fora isso, andando pelas ruas ou por outros lugares com outros métodos de limpeza, a alergia parece ter me ouvido chegar e bateu na porta. Meu corpo, por alguma razão que desconheço – ou não -,  está de ressaca e anestesiado faz algum tempo, deixou que essa cáspita entrasse. Resultado: três semanas com INTENSA tosse, espirros, corpo mole, nariz congestionado e etc, etc.

A alergia me nocauteou com um gancho de esquerda. Não satisfeita, me deu uma voadora súbita, me deixando inapta para qualquer serviço por dois dias. Sorte que os médicos que me acompanham são rápidos e fisgaram a maluca tentando me açoitar. Fora isso, minha mãe sabe uma receita de família,  do tipo centenária, de uma espécie de mel natural feito de folhas, ervas e outras coisas orgânicas que é simplesmente incrível! Tomei esse mel por 5 anos quando era criança e fiquei livre de todo tipo de problema alérgico ou resfriado.

Mamãe enviou o mel, que chamamos carinhosamente de ‘lambedor’ (pela aparência viscosa, doce, um pântano de açúcar), e comecei a tomar, seguindo também os remédios indicados. Nos últimos dias, tenho estado bem melhor. Mas tenho pensado em, algum dia não tão distante, respirar uma possibilidade mais natural, mais próxima da terra, das folhas, da luz do sol, dos pássaros.

Fluxo de consciência # 19

Tem certos dias em que o cansaço me vence. As pernas doem, o corpo lateja, a cabeça pulsa. A mecanicidade da rotina é ferramenta de tortura medieval. Encontrar o equilíbrio e driblar o “mais do mesmo” é um dos grandes desafios.

Tenho dormido tarde, acordado cedo, trabalhado, me dedicado a um projeto pessoal, estado próxima da minha família ❤ e de meus amigos queridos ❤ , organizado minha casa e lidado com o resto do mundo. Dentre essas coisas, as paixões eu tiro de letra. Já as obrigações e convenções sociais são mais exaustivas do que posso suportar.

Criei uma conta no Instagram para poder falar/ilustrar sobre o que gosto. É um alívio, uma recompensa. Como dizia Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta”. Definitivamente, ela não basta. É um tremendo alívio quando posso ficar só com os meus pensamentos e conversar horas e horas com eles, sem falar sequer uma palavra. Maravilhoso é o conforto de criar algo, tirar algo do universo abstrato e torná-lo real. A cura está no silêncio e na observação, mas é um afago na alma conversar com gente agradável, com exploradores do mundo e de si mesmos, que estão interessados em algo a mais do que egos, superficialidades, máscaras, lamentações ou chateações.

Surreal poder conversar, através da literatura, da música, do cinema e da pintura, com velhos amigos, pesssoas que já morreram há muuuuito tempo. É ultradimensional, uma experiência magnética e impagável!

É bom matar a saudade daqueles nos quais tive o prazer de conhecer em vida e que tanto me ajudaram, influenciaram, indicaram novas rotas e provaram que fruição estética pode estar associada a conhecimento (sim, é possível!).

Quando o tédio do presente bate a porta, quando o cansaço grita em meu ouvido e certas relações sociais tornam-se um fardo demasiado pesado, eu me volto para o passado, para outras dimensões, para dentro de mim. Entro e fecho a porta no meu lugar inviolável.

Fluxo de consciência # 17

Hoje de madrugada, rolou o maior tiroteio pelas ruas da Grande Tijuca. Segundo relatos de pessoas em um grupo no Facebook, a perseguição policial só teve fim em uma rua movimentada de Vila Isabel.

Do meu apartamento, escutei mais de 20 tiros em questão de segundos. Eu vivo aqui há quase três anos e me pergunto como é viver a vida inteira debaixo dessa chuva de violência. A beleza precisa ser, necessariamente, algo frágil e trágico? Algo que exige tanto, que neutraliza e sequestra? Acho que não.

Fluxo de consciência # 15

Nem por um segundo sou capaz de questionar a maravilha que é o inverno. Mas, como nem tudo é perfeito, há algo de podre na estação mais completa de todas: os dias viram noites prolongadas. E rápido, muito rápido.

Não que eu desgoste da noite – pelo contrário, sou extremamente grata. É o meu período mais criativo -, mas fica impossível perambular pelas ruas da cidade ou tentar dormir por horas seguidas. Tenho insônia, meu prédio e minha rua são barulhentos – um arrastar sem fim de móveis no andar de cima, gritos vindos da rua (vozes histéricas, brigas, gargalhadas insanas), motor de veículos e os insuportáveis ônibus (pelo menos um intermunicipal passa por aqui)… Sem contar as intermináveis motos e suas buzinas.

Além disso, não se pode flanar pelas ruas como nos bons tempos do século XIX – que tinha lá seus perigos e marmoteiros, afinal… Mas acho que a violência urbana atual – daqui e de outros locais – é tão sufocante que ficar em casa ainda é a melhor opção (pelo menos para mim).

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RJ: O vento no rosto e a calmaria de 1854

Tenho trabalhado até tarde – para freelancer, não existem férias -, dormido pouco, assistido a filmes e séries e lido algumas coisas (menos do que gostaria). A grande felicidade dos dias tem sido a capacidade de escrever com fluência, rapidez e leveza. Preciso admitir: escrever sem engasgar é ouro puro! ❤

Nos últimos dias, flanei por alguns espaços culturais e conferi exposições. Falarei disso outro dia (ou não). Entre uma instalação artística e outra, alguns questionamentos pipocaram na minha cabeça: a quem interessa manter o povo longe do conhecimento, da arte, de todo o seu esplendor, vigor e fruição? Por que continuamos alimentando a ideia de que a intelectualidade é “talento” para poucos? Ou ainda – e mais importante: Como ousamos nós, oh intelectuais abastados ou em processo de ascensão, apontar o dedo na cara de pessoas que trabalham de segunda a sábado, em longas jornadas diárias, com salários que não fazem nem cócegas nos pés de ladrões engravatados – veja, eles falam em “milhões” (propina de 2 milhões, 1 milhão, 500 mil… que dinheiro é esse, eu me pergunto?! que soma é essa que nem imagino que exista?), exigindo que tenham a obrigação de se interessar pelas esculturas de Lasar Segall, ler Machado de Assis e decodificar suas ironias brilhantes, ouvir William Lawes, se deliciando com suas composições barrocas, e cair em euforia ou catarse ao observar uma tela de Iberê Camargo?

Quanta hipocrisia nesse país afundado, meu Deus! Tenho pensado nisso todos os dias e meu estômago embrulha. Planos e esforços hercúleos para terminarmos como Sísifo. Puxa vida!

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A quem interessa que eu me torne um animal mecânico? A quem?

No coração da cidade, as pessoas parecem estar cada vez mais loucas, mau humoradas, indiferentes, resmungonas, chateadas, frias, trapaceiras, desinteressantes e mortas-vivas. E claro: alguém tem que pagar. E esse alguém, geralmente, é o seu próximo.

A cada novo dia que nasce, defendo a criação de um templo interno onde você consiga se resguardar da sandice que é viver em um umbral. Falo de modo geral, e não apenas da cidade em que resido no momento. Ou você constrói seu templo sagrado ou você vai ser despedaçado. Como grita James Hetfield com sua voz rasgada: “Sad but true”.

E como criar um templo interior, você me perguntaria?!

Bem, eu tenho desenvolvido algumas técnicas. Elas funcionam para mim – evidentemente, podem ou não funcionar para você:

  • Reservar algum tempo durante o dia para fazer atividades que me dão prazer;
  • Falar pouco – quase nada – e ouvir mais;
  • Prestar total atenção no outro mas, quando a conversa atingir níveis insuportáveis (ou se for o caso de manter contato com pessoas intragáveis), eu tiro a minha mente do local (hasta la vista, baby). Não me sinto na obrigação de aturar ladainhas ou “fa-lá-lá-lá” de ninguém. Também não gosto de ser indelicada e rude, portanto, eis o escapismo perfeito;
  • Não perder nem 10 minutos do meu tempo com vitrinismos ou conversas desnecessárias (fofocas, vida alheia, passar o tempo observando a rotina do outro em redes sociais, entre outros tipos de inutilidades);
  • Entender que o mundo não é um paraíso onde “eu faço só o que eu quero”, mas sim um lugar onde, muitas vezes, você precisa fazer “o que tem que fazer”;
  • Ficar ao lado das pessoas & animais que amo (99% deles moram fora, com exceção do meu marido e dos meus gatos, portanto, sempre dou um jeito: mando cartas, cartões (pois é!!! adoro!!), e-mails, torpedos de celular (não se surpreenda!) e mensagens pelo whatsapp. Ouço o que elas têm a dizer, o que pensam e o que sentem com 100% de atenção e empatia;
  • Tornar o relógio um amigo pessoal e não um inimigo capital.

Essas são algumas técnicas que estou desenvolvendo. Devo escrever um texto mais aprofundado e publicar. Deixo o link por aqui. Também quero falar sobre minhas impressões ao perambular pelos centros culturais. Inclusive, uma dessas perambulações me fez confrontar diretamente o meu passado e rever os meus objetivos, sonhos e a minha própria vida (sobre isso eu não quero falar, felizmente).

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Dans mon monde

Sobre desencantos #5

Que o ser humano, em termos gerais, é uma espécie de espantalho egoísta, mesquinho e desprezível não resta a menor dúvida. No entanto, certos elementos alcançam o status de “hors concours” quando se trata de desrespeito e escr***dão.

Desde ontem, um grupo de pessoas que berra como uma cabrada usa um play (?), um terraço de casa de vila (?), um espaço público (?) para atormentar toda a vizinhança com sons altíssimos, atordoantes, incessantes, perturbadores. Ontem, a festa de Baco só terminou às 3h da manhã. Insuportável! Hoje, passei o dia todo querendo me concentrar, ler, fazer minhas atividades intelectuais… Quase sem sucesso.

Os cães chupando manga continuam com suas gritarias, suas músicas sobre traição, amores interrompidos, sobre “dar na cara dela” e coisas do gênero. A cidade está caótica, dominada pela criminalidade, perigando explodir em uma bolha de violência e desemprego maior do que já está e as pessoas continuam agindo como se nada disso fosse com elas ou sobre elas. Eu poderia repetir o jargão utilizado à exaustão por aí (a saber, o famigerado “lamentável!!!!”), mas prefiro massagear as minhas têmporas, fechar os olhos e treinar a respiração.

Quando não se há nada mais a dizer, não se diz nada.

Ne verbum quidem.

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Observar. Pensar. Sentir. Fazer.